quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O presbítero deve ser irrepreensível

O presbítero é um episcopos, isto é, um supervisor do rebanho de Deus. Ele tem a responsabilidade de supervisionar interna e externamente a comunidade que está sob os seus cuidados. A sua supervisão tem uma natureza interna porque ele precisa olhar entre as ovelhas como elas estão, e como se comportam, e se estão saudáveis espiritual, moral e doutrinariamente. Ele deve se informar se as famílias sob o seu pastoreio estão vivendo de acordo com a Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, ele tem o dever de supervisionar externamente contra os lobos, os falsos mestres e alertar o rebanho contra todo falso profeta, bem como os ventos de doutrina que se aproximam do seu redil. Para exercer o seu chamado, o presbítero necessita de autoridade, senão, as ovelhas sob o seu cuidado não lhe darão ouvidos e correrão o risco de dispersar ou de serem dissipadas pelo perigo externo. Por não terem uma referência saudável, elas tenderão ao mundanismo.

Esta sublime tarefa exige que o supervisor seja de caráter irrepreensível, ele precisa ser livre de acusações dos seus adversários. A palavra no grego é anepílémptos que significa não exposto ao ataque, ou seja, ele não pode ser merecedor de censura. Samuel Miller alerta que “talvez não exista na sociedade humana situação que reclame mais imperiosamente por delicadeza, precaução, reserva, e a mais vigilante discrição, do que a de um governante eclesiástico.”[1] O presbítero não pode armar os seus inimigos com argumentos que venham usar contra ele. Como supervisor, ele deve primeiramente ser vigilante com os seus impulsos pecaminosos, para que não seja reprovado, no que precisa ser referência.

Isto não significa que ele seja perfeito, ou infalível, ou que não peque mais. Ele ainda luta contra a sua velha inclinação pecaminosa, e é consciente de suas limitações. Mas o que está em evidência em sua vida é o seu compromisso com Cristo, a sua maturidade, uma vida de transformação, o seu amor pelo Redentor está em relevo. Ele é padrão para os jovens e novos convertidos, de modo que todo o rebanho o tenha como referência ética e firmeza doutrinária. A sua vida não pode de modo algum ser caracterizada pela necessidade de contínuas repreensões, de modo que todos percebam que ele não pode ser exemplo, nem representante do rebanho de Cristo. Se nele não está em evidência as virtudes de Cristo, então, ele não pode conduzir, nem supervisionar as ovelhas do Senhor, pois o seu comportamento é vazio de autoridade para exortar, confrontar e liderar. Em outras palavras, ele simplesmente não tem autoridade.


NOTA:
Samuel Miller, O Presbítero Regente - Natureza, Deveres e Qualificações (São Paulo, Editora Os Puritanos, 2a. ed., 2011), p. 44.


Imagem: Google

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A origem do ofício de diácono

O substantivo diácono procede da palavra grega diakonós. Esta palavra ocorre 29 vezes no Novo Testamento, podendo significar:[1]
a)servo Mt 20:26; 22:13; Mc 9:35
b)garçom Jo 2:5,9
c)ministro Rm 13:4
d)auxiliar 2 Co 6:4; Ef 6:21; Cl 1:23,25; 1 Tm 4:6
e)oficial Fp 1:1; 1 Tm 3:8,12

O lexicógrafo J.H. Thayer define esta palavra como “aquele que executa as ordens de outro como um servo, atendente, ou ministro.”[2] Noutro lugar ele nos fornece outra definição mais completa como sendo “aquele que em virtude do ofício designado pela igreja, auxilia aos pobres, recebendo e distribuindo o dinheiro, que para este fim é coletado.”[3] Todavia, esta definição segue a prática da Igreja em seus primeiros séculos. A estrutura da nossa denominação embora não negue a responsabilidade do diaconato de exercer a assistência social, não recomenda nem estimula o seu manuseio financeiro deixando este para o Conselho. A definição de Thayer demonstra alguma deficiência e limitação do ofício do diácono.

Notemos ainda que, segundo William D. Mounce o verbo grego diakonéw significa “atender, cuidar, servir Mt 8:15; Mc 1:31; Lc 4:39; [...] ministrar, ajudar, dar assistência ou suplicar pelo indispensável à vida, providenciar os meios para se viver Mt 4:11; Mt 27:55; Mc 1:13; Mc 15:41; Lc 8:3.”[4] Esta definição é preferível por mostrar-se mais satisfatória as necessidades da Igreja.

A origem dos diáconos no Novo Testamento

Encontramos a narrativa histórica da origem do diaconato em At 6:1-6. Alguns estudiosos, entretanto, negam que esta passagem se refira à origem do ofício, alegando o fato de não haver menção da palavra “diácono” no texto. Todavia, podemos crer que esta passagem seja a narrativa da instituição do diaconato levando em consideração os seguintes argumentos que Louis Berkhof apresenta:
1. O nome diakonoi que, antes do evento narrado em Atos 6, era sempre empregado no sentido geral de servo ou servidor, subseqüentemente começou a ser empregado como designativo daqueles que se dedicavam às obras de misericórdia e caridade, e, com o tempo, veio a ser usado exclusivamente neste sentido. A única razão que se pode atribuir a isto acha-se em Atos 6.
2. Os sete homens ali mencionados foram encarregados da tarefa de distribuir bem as dádivas trazidas para as agapae (festas de amor cristão), ministério que noutras partes é particularmente descrito pela palavra diakonia, At 11:29; m 12:7; 2 Co 8:4; 9:1,12-13; Ap 2:19.
3. Os requisitos para o ofício, como são mencionados em Atos 6, são muitos exigentes, e nesse aspecto, concordam com as exigências mencionadas em 1 Tm 3:8-10. (4) Muito pouco se pode dizer em favor da acariciada idéia de alguns críticos de que o diaconato só foi desenvolvido mais tarde, mais ou menos na época do aparecimento do ofício episcopal.[5]

A tradição cristã reconheceu nesta decisão apostólica a origem do diaconato:
1. Irineu de Lião (130-200 d.C.) em seu livro “Contra as Heresias” 1:26; 3:12; 4:15.
2. Cipriano (200-258 d.C.) em suas “Epístolas” 3:3.
3. Eusébio de Cesaréia (260-340 d.C.) declara em sua “História Eclesiástica” que ali “foram igualmente destacados pelos apóstolos, com oração e imposição de mãos, homens aprovados para o ofício de diáconos, para o serviço público”.[6]

Mesmo numa leitura artificial da passagem de At 6:1-6 é possível verificar um problema de omissão na “mesa das viúvas dos gentios”. Esta omissão certamente não era proposital, pois os apóstolos sendo apenas “os doze” não podiam suprir todos os novos convertidos no ministério de ensino da Palavra de Deus, e ao mesmo tempo “servindo as mesas”. Há pelo menos quatro motivos que podemos enumerar para a instituição do diaconato:
1. Para evitar a desordem nos relacionamentos da Igreja. Surgia o grave problema da murmuração.
2. Para evitar que houvesse partidos dentro da Igreja. A omissão às mesas das viúvas enfatizava as diferenças entre o grupo dos judeus helênicos e judeus palestinos.
3. Para evitar a injustiça na distribuição de alimentos e donativos aos necessitados.
4. Para que os mestres da Palavra sejam dedicados no ensino da mesma. É importante observarmos que os apóstolos não estavam rejeitando o “servir às mesas das viúvas”. John R. W. Stott faz uma importante contribuição ao entendimento deste assunto ao dizer que “não há aqui nenhuma sugestão de que os apóstolos considerassem a obra social inferior à obra pastoral, ou de que a achassem pouco digna para eles. Era apenas uma questão de chamado. Eles não poderiam ser desviados de sua tarefa prioritária”.[7]

Charles R. Erdman sugere algumas idéias sobre a necessidade do diaconato na Igreja Cristã. Vejamos que:
(1) É dever óbvio da Igreja, em toda parte, provar às necessidades dos seus membros.
(2) Essa provisão exige clarividência e cautela, para que os que mais precisam não sejam omitidos.
(3) A administração de tais socorros precisa incluir contato e simpatia pessoais. Não é coisa que se deva fazer mecanicamente, ou porque seja praxe. São socorros que devem resultar em conforto espiritual e, se possível, devem levar as pessoas a ficar em condições de poder dispensá-los mais adiante.
(4) Esse trabalho requer a designação de oficiais especializados. “O ministro” deve ser desembaraçado das particularidades que cercam o levantamento e a aplicação de dinheiro entre os membros de sua Igreja.
(5) Ao ministro se deve permitir que se empregue seu tempo no estudo, na prédica e na oração.
(6) O socorro dos pobres, ou seja a assistência social, de qualquer que seja a natureza, jamais deve tomar o lugar do esforço evangelístico.
(7) Na Igreja todos os seus oficiais são “ministros” ou “servos”, na verdadeira acepção do termo; não são dominadores. E qualquer que seja a forma do serviço, devem procurar fazer dele um meio de testemunhar de Cristo, o que aliás vem sugerido nos episódios de Estevão e Filipe, dois diáconos cujo testemunho constitui uma parte significativa da história que se segue imediatamente.[8]


Notas:
[1] F.W. Gingrich & F.W. Danker, Léxico do N.T. Grego/Português (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1993), p. 53
[2] J.H. Thayer, Thayer’s Greek-English Lexicon of the New Testament (Grand Rapids, Associeted Publishers and Authors Inc., 1889), p. 138
[3] Ibidem.
[4] William D. Mounce, The Analytical Lexicon to the Greek New Testament (Grand Rapids, Zondervam Publishing House, 1992), p. 138
[5] Louis Berkhof, Teologia Sistemática (Campinas, LPC, 1990), p. 591.
[6] Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica (Rio de Janeiro, CPAD, 1999), Livro 2. Cap. 1, p. 47
[7] John W.R. Stott, A Mensagem de Atos (São Paulo, Ed. ABU, 1994), p. 134
[8] Charles R. Erdman, Atos dos Apóstolos (São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1960), pp. 58-59

Rev Ewerton B. Tokashiki


Imagem: Google

domingo, 15 de outubro de 2017

Perecerão os que nunca ouviram do Evangelho?

David N. Steele & Curtis C. Thomas

Todos os homens são culpados diante de Deus por duas causas. Primeiro, por causa do pecado de Adão, que foi imputado a todo o gênero humano; e segundo, por causa dos próprios pecados cometidos ao transgredir a lei de Deus. A única forma em que os pecadores podem ser livres da culpa é por meio de sua fé em Cristo Jesus. Mas, e aqueles que nunca ouviram falar de Cristo e, portanto, não podem crer nEle? Estão perdidos? Perecerão no Inferno? A resposta de Paulo é: sim! Pois como explica em Rm 10:14-17, a menos que o Evangelho seja pregado aos perdidos (isto inclui a todos os perdidos, tanto pagãos como os judeus), e estes creiam nEle, eles não poderão escapar da ira de Deus. Referindo-se a Cristo, Pedro declara: “e não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12, ARA).

Aqueles que não viveram debaixo da iluminação da Palavra de Deus, não serão julgados de maneira tão rígida como aqueles que viveram sob esta Palavra, entretanto, recusam ouvir as suas advertências e aceitar as suas promessas. Isto é o que Cristo nos ensina em Lc 12:47-48: “aquele servo, porém, que conheceu a vontade do seu Senhor, não se preparou, nem obedeceu conforme a sua vontade, receberá muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez cousas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão.” Como Charles Hodge disse: “os homens serão julgados pela luz que desfrutaram individualmente. A base do juízo são as suas obras; a regra para julgá-los é o seu conhecimento.”[1] Sendo que os pagãos pecam contra Deus por transgredir a lei escrita em seus corações, é óbvio que perecerão, a menos que alguém lhes leve a mensagem de Cristo; pois, não há justificação para os pecadores, senão pela fé em Cristo. Deus salva aos seus escolhidos por meio do Evangelho de Jesus Cristo; e são chamados externamente pela mensagem evangélica e interiormente pelo Espírito Santo, que lhes capacita a crer na mensagem. “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o principio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 2:13-14, ARA).

Há quem crê que aqueles que nunca ouviram o Evangelho não poderão ser condenados. O seu argumento é de que “Deus não pode ser tão injusto ao condenar para o Inferno aqueles que nunca tiveram a oportunidade de aceitar ou rejeitar a Cristo.” Todavia, os mesmos que assim falam defendem o envio de missionários àqueles que ainda não ouviram o Evangelho e que, segundo o seu ponto de vista, não podem ser condenados. Parece contraditório manter a ideia de que o paganismo está seguro porque não ouvem o Evangelho, e ao mesmo tempo apoiar o movimento missionário; pois se os pagãos não podem ser condenados sem antes ouvir o Evangelho, e se depois de haverem ouvido alguns deles o rejeitam, então, não devemos pensar que os missionários, em lugar de levar a esperança e possibilidade de salvação ao pagão, lhes levam somente a condenação para aqueles que rejeitam a Cristo depois de haver ouvido a mensagem? Mas como Paulo demonstra em Romanos, os homens se perdem não porque rejeitam a Cristo, mas por causa dos seus pecados. E, se vão crer no Evangelho de Cristo, que lhes liberta da culpa do pecado, deverão primeiro ouvi-lo. Portanto, o envio de missionários é absolutamente um imperativo, se quisermos que o incrédulo seja salvo.

A Escritura guarda silêncio quanto à salvação daqueles que são incapazes de compreender e crer no Evangelho (isto é, as crianças e os doentes mentais, etc.). Mas, é suficiente conhecer e saber que o Juiz do mundo fará o que é correto. Que estes necessitam da salvação está claro pelo fato de que a raça humana foi contaminada com o pecado de Adão (Rm 5:12-19); mas não nos diz nada a respeito da provisão feita por eles. Uma coisa é certa: se forem para o céu, terão que ir pelos méritos de Cristo, e não por serem inocentes, ou por estarem livres da culpa. Quando consideramos este assunto devemos ter em conta as palavras de Dt 29:29: “As coisas secretas pertencem ao SENHOR o nosso Deus; mas as reveladas são para nós e para os nossos filhos”.


NOTA:
[1] Charles Hodge, Romans - Geneve Series of Commentaries (Edimburgh, The Banner of Truth, 2009), p. 53.

Extraído de David N. Steele & Curtis C. Thomas, Romanos Un Bosquejo Explicativo pp. 121-123.
Tradução livre:
Rev. Ewerton B. Tokashiki

Imagem: Google

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Eu creio nos 5 solas da Reforma

Somos uma igreja herdeira da Reforma protestante do século XVI. Os 5 pilares da nossa herança são:

Sola Scriptura: somente a Escritura Sagrada
Solus Christus: somente em Cristo
Sola gratia: somente a graça
Sola fide: somente a fé
Soli Deo gloria: somente a Deus toda glória

1. Somente a Escritura Sagrada: é a nossa única fonte e regra de fé e prática
O calvinismo possui o seu sistema doutrinário centrado na Escritura Sagrada. Desde a Reforma do século XVI foi ensinada a doutrina da sola Scriptura – ou seja, que a Escritura é a única fonte e regra de autoridade. Entretanto, a autoridade da Escritura resultado do fato dela ser a Palavra de Deus. John H. Armstrong corretamente observa que “a autoridade é encontrada no próprio Deus soberano. O Deus que ‘soprou’ as palavras por meio dos escritores humanos está por trás de toda afirmação, toda doutrina, toda promessa e toda ordem contidas na Escritura”.[1] Se rejeitarmos a Escritura Sagrada estamos desprezando a vontade preceptiva de Deus.

A Bíblia tem autoridade porque ela é revelação da vontade de Deus. Por isso, “as inspiradas Escrituras, revelando a vontade transcendente de Deus em forma escrita e objetiva, são a regra de fé e conduta através da qual Jesus exerce sua autoridade divina na vida do crente.”[2] Em outras palavras, esta doutrina significa que a base da nossa doutrina, forma de governo de igreja, culto e todas as esferas da vida, não se fundamentam no tradicionalismo, no subjetivismo, no relativismo, no pragmatismo, ou no pluralismo, mas é extraída somente na Escritura Sagrada. Cremos que suficientemente ela é a verdade absoluta, porque somente a Escritura é a Palavra de Deus (2 Tm 3:16-17; 2 Pe 1:19-20).

2. Somente Cristo: o único mediador da nossa salvação
O nosso Senhor Jesus se fez um de nós para ser o nosso substituto. Ele é o nosso único representante diante de Deus. O Pai firmou o pacto da redenção que estipulava que o Filho viesse ao mundo para cumprir a sua vontade (Jo 4:34; 6:38-40; 10:10). A Confissão de Fé de Westminster declara que
aprouve a Deus em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo; e deu-lhe desde toda a eternidade um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido, chamado, justificado, santificado e glorificado.[3]

Não temos outro mediador pelo qual possamos ser reconciliados com Deus, a não ser Jesus Cristo (At 4:11-12; 1 Tm 2:5). A sua obra lhe confere autoridade para declarar justo todos quantos o Pai lhe deu (Jo 6:37,39,65). Toda a obra expiatória de Jesus é suficiente para a nossa salvação (Rm 8:1). Somente através da perfeita obra de Cristo seremos salvos. A nossa culpa e merecida condenação caiu sobre ele (Hb 2:10). A sua obediência ativa cumpriu todas as exigências da Lei, bem como submetendo passivamente à condenação, fez com que pela sua humilhação, obtivesse plena satisfação da justiça de Deus. O Pai retirou o seu consolo e derramou sobre Cristo a sua ira divina, punindo nele o nosso pecado. As nossas iniquidades estavam sobre o Filho, e a justa ira de Deus veio sobre o nosso pecado na cruz (Hb 2:10). Jesus tornou-se amaldiçoado em nosso lugar sobre o madeiro (2 Co 5:21). O Filho de Deus sofreu os tormentos do inferno intensivamente na cruz, o que sofreríamos extensivamente na eternidade. Cremos que a sua morte expiatória na cruz satisfez a justiça de Deus e, eliminou completamente a nossa condenação futura (Rm 3:24-25), redimindo-nos de todos os nossos pecados (Ef 1:7).

3. Somente a graça: a única causa da nossa aceitação
Cremos que a salvação do homem não é resultado de algum mérito pessoal (Rm 3:20, 24, 28; Ef 2:1-10). Todo ser humano possui uma disposição moral totalmente corrompida, de modo que, ele é incapaz de satisfazer perfeitamente a Lei de Deus (Tg 2:8-10). O empenho de merecer a salvação pelas boas obras somente resulta em condenação. Sem a graça a nossa predisposição natural é somente para o pecado (Rm 7:13-25).

A Escritura nos revela que todo ser humano em seu estado natural é inimigo de Deus (Rm 3:23; 5:10). O teólogo puritano Stephen Charnock observou que “todo pecado é uma espécie de amaldiçoar a Deus no coração. O homem tenta destruir e banir Deus do coração, não realmente, mas virtualmente; não na intenção consciente de cada iniquidade, mas na natureza de cada pecado.”[4] A dureza de coração lhe é normal, porque ele está rígido como uma pedra (Ez 36:26-27).

O livre arbítrio perdeu-se com a Queda.[5] Esta capacidade de agir contrário à própria natureza foi perdida com a escravidão do pecado. No início, Adão criado em santidade, foi capaz de escolher contrário à sua inclinação natural de perfeita santidade e, decidiu pecar. O primeiro homem livremente passou a agir de acordo com a escravidão dos desejos mais fortes da sua alma corrompida pela iniquidade. Ele é livre, mas a sua liberdade é usada tendenciosamente para pecar conforme os impulsos de sua inclinação para o pecado. Se ele for deixado para si mesmo, ele sempre agirá de acordo com a sua disposição interna, ou seja, naturalmente escolherá pecar (Rm 1: 24-32; 3:9-18; 7:7-25; Gl 5:16-21; Ef 2:1-3).

A nossa salvação é resultado da ação da livre e soberana graça do nosso Deus. A Confissão de Fé de Westminster declara que
todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso, dispostos pela sua graça.[6]

Somente a ação soberana e eficaz do Espírito Santo é capaz de regenerar corações implantando uma nova disposição santa. O resultado é a libertação da escravidão do pecado. Esta obra Deus a realiza pela graça somente.

4. Somente a fé: é o único instrumento de posse da nossa salvação
A fé é o meio normal pelo qual o Espírito Santo aplica o processo da salvação nos eleitos. Entretanto, devemos lembrar que a fé é dom de Deus e não uma virtude humana (Rm 4:5; 10:17; Ef 2:8-9; Fp 1:9). O Breve Catecismo de Westminster define este dom: “fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no Evangelho.”O Catecismo de Heidelberg esclarece que
a verdadeira fé é a convicção com que aceito como verdade tudo aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra. É também a firme certeza de que Deus garantiu – não só aos outros como também a mim – perdão de pecados, justiça eterna, e salvação por pura graça e somente pelos méritos de Cristo. O Espírito Santo realiza essa fé em meu coração por meio do evangelho.[7]

Por isso, a teologia reformada entende que a verdadeira fé é o resultado de um iluminado conhecimento, da plena concordância verdade e da firme confiança na Palavra de Deus.

A justificação vem pela fé somente na obra de Cristo. Nenhum homem pode ser salvo, a não ser que creia na expiação realizada por Cristo, confiando exclusivamente nele (Rm 1:17; Tt 3:4-7; 1 Jo 5:1). A justiça de Cristo que é imputada sobre nós concede, garante e mantém-nos aceitos na comunhão eterna de Deus.

A verdadeira fé conduz as boas obras que evidenciam a salvação e glorificam a Deus. A salvação é pela fé somente, mas a fé salvadora nunca está sozinha. A fé salvadora produz amor prático ao próximo, santidade pessoal em obediência à Palavra de Deus. A Escritura Sagrada declara que “pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10).

5. Somente a Deus toda glória: o único objetivo da nossa salvação
Cremos no único Deus, que é Senhor da história e do universo, “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11). É nossa convicção que a finalidade principal da vida não é necessariamente o bem-estar, a saúde física, a prosperidade, a felicidade, ou mesmo a salvação do homem, mas, a glória de Deus e na manifestação de todos os seus atributos. Johannes G. Vos comentando o Catecismo Maior de Westminster observa que “quem pensa em gozar a Deus sem o glorificar corre o risco de supor que Deus existe para o homem, e não o homem para Deus. Enfatizar o gozar a Deus mais do que o glorificar a Deus resultará num tipo de religião falsamente mística ou emocional.”[8] Deus não existe para satisfazer as necessidades do homem, embora ele o faça por amor de si mesmo (Ez 20:14). O homem foi criado para o louvor da glória de Deus (Rm 11:36; Ef 1:6-14).[9]

É verdade que a glória de Deus transcende ao nosso entendimento, mas ela pode ser percebida pela sua manifestação na criação e pela revelada Palavra da Deus. João Calvino no início de suas Institutas escreve que
a soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos. Quanto ao primeiro, deve-se mostrar não somente que há um só Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede.[10]

Mas, por que a nossa felicidade depende da glória de Deus? Simplesmente porque a nossa dignidade e satisfação dependem de vivermos sem a insensatez, vícios e destruição causados pelo pecado. Somente quando obedecemos à vontade de Deus, segundo as Escrituras, podemos andar aceitáveis em sua presença e desfrutar dos benefícios das suas promessas. Aurélio Agostinho em sua obra Confissões declarou que “Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”[11] Assim, quanto maior for a nossa satisfação em Deus, ele será mais glorificado em nós!

O soberano Senhor não compartilha a sua glória com ninguém! O nosso orgulho é uma ofensa gravíssima ao nosso Deus. Não é em vão que ele denúncia a sua rejeição aos soberbos (Tg 4:6-10). Somente ele é o Altíssimo, enquanto o pecador consegue em suas fúteis pretensões ser apenas uma ilusória altivez. Não podemos esquecer de que somos chamados para ser servos do seu reino, e de que toda a abrangência de nossa vida está ao seu serviço (Rm 11:36).

O profeta Jeremias disse que "assim diz o SENHOR: não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR." (Jr 9:23-24). Assim, em compromisso, confessamos que “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11:36).


NOTAS:
[1] John H. Armstrong, “A autoridade da Escritura” in: Bruce Bickel, ed., Sola Scriptura numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2000), p. 90.
[2] Carl F.H. Henry, “A autoridade da Escritura” in: Philip W. Comfort, ed., A origem da Bíblia (Rio de Janeiro, CPAD, 1998), p. 28.
[3] Confissão de Fé de Westminster VIII.1.
[4] Stephen Charnock, The Existence and the Attributes of God (Grand Rapids, Baker Books, 2000), vol. 1, p. 93.
[5] A tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio da seguinte forme: “o livre arbítrio é dividido em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para o bem e para o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele é incapaz de não pecar. No estado de graça, o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele se tornará incapaz de pecar.” Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, ed., Reformed Dogmatics (Grand Rapids, Baker Books, 1977), p. 65. Este manual de teologia de Wollebius [1586-1629] influenciou os teólogos que elaboraram os Padrões de Westminster.
[6] Confissão de Fé de Westminster, X.1.
[7] Catecismo de Heidelberg, Domingo 7, perg./resp. 21.
[8] Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (Editora Os Puritanos), pág. 32.
[9] Breve Catecismo de Westminster, perg./resp. 1.
[10] João Calvino, Institutas, (edição estudo de 1541), vol. I, p. 55.
[11] Santo Agostinho, Confissões(Editora Paulus), vol. 10, p. 19.


Imagem: Google

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Intoxicação teológica e dúvidas sinceras

Após o almoço olhando as postagens nas redes sociais, aparece a seguinte conversa:[1]

Jovem teólogo:[2]
Boa tarde. Irmão, é que eu estou passando por um momento intelectualmente complicado.
Pode me ajudar?

Eu:
Se possível, sim

Jovem teólogo:
Sou cristão há 5 anos, tenho 19. Creio nas doutrinas da Graça, o calvinismo. Só que nos últimos muitos meses, eu tenho visto tanta contradição entre doutrinas, nas próprias igrejas... Li matérias de que a Bíblia que temos em mãos é cópia de cópia de cópia, por isso seria adulterada. Vi trechos e textos que firmam que YaHVeH pode ser uma mistura de deuses pagãos. E tenho me sentido inclinado ao agnosticismo... Estou confuso e cansado, irmão.

Eu:
Peço que considere algumas ideias. Primeiro, creio que você precisa ler a Escritura e confiar no testemunho interno do Espírito Santo, que testifica ser a Bíblia a Palavra de Deus. Você está fraco na fé. O alimento da fé é a Escritura, nutra-se dela. Segundo, as teorias críticas foram produzidas por estudiosos ímpios e refletem a sua incrédula rebeldia. São ideias altamente venenosas. Mas existe excelente antídoto para neutralizar os seus efeitos nocivos. Terceiro, estude autores que comprometidos com a verdade, produzem textos bem pesquisados, seriamente escritos para promover vigor e fortalecer uma cosmovisão coerentemente cristã. Quarto, a dúvida é saudável quando me desafia a conhecer a verdade. Se a dúvida induz à incredulidade ou ao agnosticismo, então, ela apenas está revelando uma reação pecaminosa do seu coração. Aconselho, no amor de Cristo, que se arrependa! Duvide de si mesmo, questione a sua sabedoria, pergunte-se seriamente se os pensamentos que estão te afastando do verdadeiro Deus, se, de fato, são verdadeiros. E, por último, tenha um mentor teológico que te oriente em suas leituras. De certa forma, ler é alimentar-se. A questão é se você está se nutrindo, ou se intoxicando. Oro para que este momento ruim passe. Se precisar de algo mais pode consultar-me. No amor e temor de Cristo, o nosso Redentor.

Jovem teólogo:
Certo, vou reler isto que o senhor me disse e refletir... Desde já eu agradeço, de verdade, me deu uma resposta diferente da maioria.
Deus abençoe. Certo, eu agradeço de verdade por sua ajuda.
Obrigado por estar disponível.



NOTAS:
[1] O texto é o resultado de uma conversa que tive com um jovem que leu teologia liberal.
[2] A sua identidade será preservada. Pessoalmente não o conheço.


Imagem: Google

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A forma de questionar e examinar aos pequenos antes de serem admitidos na Ceia do Senhor

Escrito por João Calvino
Pergunta o mestre: Vocês são cristãos?
Responde o discípulo: Sim somos, pela misericórdia de Deus.

Mestre: Vocês nasceram cristãos, ou se tornaram após o nascimento?
Discípulo: Todos nascemos pecadores desde o ventre da mãe, condenados, inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Mas, depois recebemos o benefício de sermos cristãos por amor de Jesus Cristo.

Mestre: Por que motivo nascemos assim?
Discípulo: Porque todos pecamos em Adão, por ele ter se tornado pecador, nascemos pecadores corrompidos e sentenciados a morte como traidores.

Mestre: Que sinal vocês têm de que são cristãos?
Discípulo: Tenho a fé do evangelho e o batismo.

Mestre: Se têm a fé por sinal de são cristãos, digam-me agora em que creem?
Discípulo: Cremos em Deus Pai, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, em quem tenho toda confiança de minha salvação, e a quem sempre recorremos em todas as nossas necessidades.

Mestre: O Pai, o Filho e o Espírito Santo são mais de um Deus?
Discípulo: Não. Porque não há, nem pode existir além de um, que é o Criador e Preservador de tudo.

Mestre: Que confissão de fé vocês fazem?
Discípulo: A que é desde sempre comum à Igreja de Jesus Cristo, que se chama o Símbolo dos Apóstolos, que começa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra ...

Mestre: Em quantas partes se divide?
Discípulo: Em quatro.

Mestre: Diga o resumo do que contém na primeira parte.
Discípulo: Que Deus, que é Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, é também pai de todos nós por amor dele; e é o princípio e causa de todas as coisas, as quais governa de tal maneira que nada ocorre sem a sua ordenação e vontade, e ele é o provedor de todas as coisas, o que mantém e sustenta com sua bondade, sabedoria e poder.

Mestre: Agora diga o que contém na segunda.
Discípulo: Que Jesus Cristo, sendo Deus igual ao Pai, condescendeu ao mundo, e se fez homem no ventre da santa e virgem Maria, por obra do Espírito Santo, e vindo cumprir tudo o que se requeria para nossa salvação; e que do céu, aonde subiu após ressuscitado, e onde está assentado à destra do Pai, no último dia virá com grande glória e majestade para julgar vivos e mortos.

Mestre: Passe para as duas últimas.
Discípulo: A suma da terceira é que confessamos crer no Espírito Santo, Deus verdadeiro, igual com o Pai e o Filho, por cuja virtude e potência as promessas feitas e cumpridas em Jesus Cristo são impressas e seladas em nossos corações; o qual nos santifica e conserva pela fé, e nos faz seu templo. A última é que há uma igreja santa e universal, congregada e iluminada pelo Espírito Santo, livre e purificada de seus pecados pelo sangue de Jesus Cristo, o qual é seu cabeça, de onde recebe espírito e vida, e que Deus lhe tem equipada a cumprida possessão da vida eterna. Este é o resumo e substância do que creio.

Mestre: Está bem declarado, passemos adiante. Devemos servir a Deus segundo os seus mandamentos, ou segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Devemos servi-lo segundo os seus mandamentos, e não segundo as tradições dos homens.

Mestre: Por que não temos de servi-lo segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Porque todos os serviços que por elas se fazem, os têm proibidos como sendo vãos e abomináveis. E castiga com cegueira de entendimento e outros muitos males aos homens por eles.

Mestre: Onde encontraremos os mandamentos de Deus pelos quais requer servi-lo?
Discípulo: Encontraremos em muitos lugares da santa Escritura, e singularmente no capítulo 20 de Êxodo. Deus os deu a seu povo, pela mão de Moisés, dizendo: “Ouve Israel, Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão: não terás outros deuses diante de mim”, etc. E os demais da primeira e segunda tábua.

Mestre: Vocês têm força para cumpri-los como Deus ordena?
Discípulo: Não, de modo algum; porque toda a nossa inclinação é fraqueza, ignorância e corrupção.

Mestre: Então, quem é que os cumpre em vocês?
Discípulo: O Espírito Santo.

Mestre: E depois de Deus ter concedido o seu Espírito, vocês são capazes de cumpri-los perfeitamente?
Discípulo: Muito menos.

Mestre: Deus na lei amaldiçoa e rejeita a todos os que não cumprem perfeitamente os seus mandamentos.
Discípulo: Assim é verdade.

Mestre: Então, por qual meio vocês serão salvos e livres da maldição de Deus?
Discípulo: Seremos salvos somente pela morte e sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mestre: Como assim?
Discípulo: Porque por sua morte nos restituiu a vida, e nos reconciliou com o eterno Pai. Segundo disse são Paulo, que foi morto pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.

Mestre: De que maneira vocês serão participantes do benefício de sua morte e ressurreição para alcançar a salvação?
Discípulo: Recebendo-o por verdadeira fé e confiança na misericórdia de Deus.

Mestre: Essa fé com que se recebe o benefício de Cristo, encontra-se sem a obediência de Deus, e sem caridade para com o próximo?
Discípulo: Não, de modo algum. Porque ela é a raiz de onde procedem. E assim, quem verdadeiramente crê, alegremente obedece a Deus e ama ao seu próximo, e pelas boas obras que lhe faz, declara tanto um como o outro.

Mestre: De que maneira a fé, a obediência e o amor estão juntas no cristão?
Discípulo: Na verdade elas sempre andam tão unidas que onde qualquer uma delas se acha, necessariamente se encontram todas as outras.

Mestre: Satisfeito, passemos à oração, e digam-me primeiro. Em nome de quem vocês invocam a Deus?
Discípulo: Em nome de Jesus Cristo, que é o nosso perpétuo intercessor e advogado diante de sua Majestade.

Mestre: Há outro advogado, ou temos necessidade de outro além deste diante do Pai?
Discípulo: Não há outro, nem temos necessidade de outro. Porque não há além de um Redentor, que é Jesus Cristo, assim não há, nem pode haver mais de um advogado e mediador entre Deus e os homens, que é ele mesmo.

Mestre: Será ouvido se fizer uma oração a Deus por meio de outro que não seja Jesus Cristo?
Discípulo: Não. Pelo contrário, peca em orar assim. Porque não tem mandamento, nem promessa de Deus para isto; e tudo o que não procede da fé, é pecado.

Mestre: Logo os que invocam a Deus por meio dos santos que passaram por este mundo, são deste modo ofensores de sua Majestade?
Discípulo: É verdade. Porque não tem Deus expressamente proibido e mostram os que assim o fazem, que não têm Deus por Pai, nem conhecem a Jesus Cristo.

Mestre: Vejamos qual é a forma que se tem que invocá-lo?
Discípulo: A que ensinou Jesus Cristo aos seus apóstolos, para a sua Igreja, de onde se contém tudo o que temos que pedir a Deus para passar desta vida, e vir depois a gozar da que é eterna. E começa desta maneira: Pai nosso, que está no céu, etc.

Mestre: É permitido usar de outra forma de oração que não seja esta?
Discípulo: É lícito, desde que se refira a esta todas as orações que fizermos.

Mestre: Por que?
Discípulo: Porque nesta oração se abrange tudo o que Deus requer que lhe peçamos, e nos é dada por regra de bem orar.

Mestre: Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
Discípulo: Somente dois.

Mestre: Quais são?
Discípulo: O batismo e a Santa Ceia do Senhor.

Mestre: Qual é a significação do batismo?
Discípulo: Tem duas partes. Porque nele nos representa o Senhor, de um lado, e a remissão dos nossos pecados, e por outro, a nossa regeneração ou renovação espiritual.

Mestre: E o que nos significa a Santa Ceia?
Discípulo: Significamos que pela comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, são mantidas nossas almas na esperança da vida eterna.

Mestre: O que nos representa o pão e o vinho que nos são dados na Santa Ceia?
Discípulo: Representam-nos que o corpo e sangue de Jesus Cristo têm tal virtude para manter nossas almas, do mesmo modo que o pão e o vinho para sustentar os nossos corpos.

Mestre: A Ceia foi instituída para que novamente se faça nela o sacrifício a Deus do corpo de seu Filho?
Discípulo: Não, de maneira alguma. Porque somente a Jesus Cristo, por ser o eterno sacerdote, pertence o ofício de sacrificar, o qual na cruz ofereceu seu corpo em perpétuo sacrifício, que bastou para a nossa salvação. Portanto, não resta senão que gozemos dele.

Mestre: Então, para que foi estabelecida a Ceia, se não temos que sacrificar?
Discípulo: Foi-nos deixada por um perpétuo memorial da morte do Senhor. E assim, pelo uso legítimo dela somos induzidos a considerar tudo o que ele fez para a nossa salvação, e somos mantidos espiritualmente, e confirmados na fé de tudo isto.

Mestre: Todo cristão deve receber o sinal do pão e do vinho, ou basta usar apenas de um deles.
Discípulo: É necessário a todo cristão receber ambas os elementos. Porque assim o Senhor Jesus Cristo deixou ordenado e estabelecido. E quem o fizer contra isto, incorre em gravíssimo pecado.

Mestre: Vocês entendem que o corpo de Jesus Cristo esteja encerrado no pão, e o seu sangue no vinho?
Discípulo: Não.

Mestre: Então, onde devemos buscar a Jesus Cristo a fim de satisfazermos nele?
Discípulo: No céu, na glória do Pai.

Mestre: Qual é o meio para ao céu onde Jesus Cristo está?
Discípulo: É a verdadeira fé do evangelho. Porque por ela Deus nos atraí para si, e vamos a ele.

Mestre: Então, é necessário exercer a verdadeira fé, antes que possamos bem usar deste santo sacramento?
Discípulo: É verdade. Porque foi instituída para confortar e esforçar os que estão vivos em Deus, e nenhum está se não a tiver.

Mestre: O que recebem os que carecendo desta fé se achegam da mesa do Senhor para comungar?
Discípulo: Recebendo o sacramento do corpo e do sangue do Senhor, recebem juízo e condenação contra si, como disse são Paulo.

Mestre: Então o que faremos para que recebendo o sacramento nos seja saudável?
Discípulo: Devemos nos examinar como ordena o apóstolo.

Mestre: Como se fará esta prova e exame?
Discípulo: Que observe cada um antes da comunhão, se tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e firme propósito de viver conforme a lei de Deus; se está unido com Jesus Cristo pela fé, e com seus próximos pelo amor.

Mestre: E como podemos ter esta fé para que estejamos dispostos para este celestial convite?
Discípulo: Obtemos pelo Espírito Santo que mora em nossos corações e nos faz certos das promessas de Deus, que nos são feitas no evangelho.

Mestre: Que sinais teremos para conhecer que as recebemos?
Discípulo: Temos quatro. A primeira, amar a Deus e estar afeiçoados pela sua lei. A segunda, ter a consciência pacífica e certa de que são perdoados os nossos pecados pelo sangue de Jesus Cristo. A terceira, usar da caridade com os próximos em geral, e especialmente com os fiéis e membros de Cristo. A última, mortificar continuamente todas as concupiscências e desejos da carne, e ter grande ódio ao pecado.

Mestre: Onde houver estes frutos, existirá a fé verdadeira e eficaz?
Discípulo: Sim, porque eles são conhecidos.

Mestre: Agora sigam com a graça de Deus, e esforcem-se sempre com diligência de frutificar desta maneira, e roguem ao Senhor que faça a todos, que seja glorificado por meio de todos, e que sejamos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo, o nosso único Redentor e Senhor.

Fim do catecismo



Traduzido de B. Foster Stockwell, "Catecismo de la Iglesia de Ginebra [1542]" in: Catecismos de la Iglesia Reformada (Buenos Aires, Editorial "La Aurora", 1962), pp. 116-124.


Imagem: Google