sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os cristãos podem ter dúvidas a respeito de Deus?

Traduzido por Juliana Pellicer Ruza – Artigo original aqui.

Todo cristão já teve dúvidas em algum ponto de sua vida cristã. Somos todos criaturas finitas. Não conhecemos todas as coisas. Algumas vezes entendemos as coisas de forma errada. E essa possibilidade pode nos fazer duvidar de nossas crenças.

Mas isso não é exclusividade dos cristãos. Todos têm dúvidas. Então a questão não é verdadeiramente “Cristãos podem ter dúvidas?”, mas sim, “O que devemos fazer quando as dúvidas surgirem?”

Dúvidas podem ser uma coisa boa. Elas podem nos fazer olhar mais de perto no que acreditamos e porque acreditamos nisso. Por exemplo, um cristão que está passando por um período de sofrimento pode não sentir a presença de Deus na sua vida, e pode ter algumas dúvidas sobre a existência de Deus. Isto força aquela pessoa a refletir em como ele ou ela sabe que Deus é real. A sua fé em Deus é apenas baseada nas emoções ou é baseada em evidências?

Nossos sentimentos sobre a presença imediata de Deus podem ir e vir, mas isso não muda o fato. Aqueles que tem um bom sentido sobre Deus – quem ele é e o que ele fez – podem se firmar sobre essas rochas de convicção em tempos de dúvida. Isto porque estas convicções são baseadas em firme evidência, não em emoções inconstantes.

Vemos isto acontecer nas Escrituras. Quando João Batista foi preso por sua fidelidade a Deus, ele foi afligido por dúvidas acerca de Jesus. Na verdade, João, por meio de seus discípulos, pergunta a Jesus “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?”

Lembre-se, este é o mesmo João que, uma vez, saltou no ventre de sua mãe ao som da voz de Maria. Este é o mesmo João que confiantemente declarou “Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” Este é o mesmo João  que batizou Jesus e ouviu a voz do céu que dizia, “Este é meu filho amado, em quem me comprazo.”

Mas agora João está em uma prisão romana, esperando uma provável execução e está se perguntando se entendeu tudo errado. Ele passou a vida proclamando que o Messias viria e queimaria a palha com fogo inextinguível, mas a palha não está se queimando. Eles estão festejando. Então João começa a duvidar. Agora note a resposta de Jesus aos discípulos de João: “Jesus respondeu: Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres; e feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa.” (Mt 11:4-5)

Jesus não diz a João para olhar para dentro do seu coração, em busca de algum sentimento subjetivo. Ele não diz a João para ignorar suas dúvidas e apenas crer cegamente. Ao invés disso, Jesus aponta para a evidência objetiva e substancial de quem ele é. Os cegos estão vendo. Os mancos estão andando. Os surdos estão ouvindo. Em suma, Jesus diz a ele para crer com base nas obras que ele está fazendo.

Note também que Jesus nunca repreende João por duvidar. Ele não questiona a sua espiritualidade ou chama João de um mau cristão.
Pelo contrário, Jesus diz, “Digo-lhes a verdade: entre os nascidos de mulher, não surgiu ninguém maior do que João Batista; todavia, o menor no reino dos céus é maior do que ele.” (Mateus 11:11). Lembre-se, Jesus diz isso depois de João ter vacilado em sua fé.

Há dois destaques práticos para todo cristão nesta troca entre Jesus e João Batista. Primeiro, levante suas dúvidas. Não as suprima; exprima-as. Dúvidas que são ignoradas e deixadas sem resposta podem levá-lo ao desespero. Ao invés disso, siga o exemplo de João Batista e articule suas dúvidas.

Algumas vezes nós podemos ter vergonha de admitir que temos dúvidas, especialmente se estamos em posições de liderança na igreja. Tenha bom ânimo. Se o profeta João Batista pode levar suas dúvidas a Jesus, você também pode.

Uma vez que você tenha levantado suas dúvidas, não pare aí.
Em segundo lugar, questione suas dúvidas. Tente enquadrar suas dúvidas em questões e então busque boas respostas. Mais especificamente, busque motivos para questionar suas dúvidas. Nem todas as dúvidas são iguais.

Há dúvidas que fazem frente a um exame mais severo. Como consequência, estas dúvidas requerem uma mudança em nossas crenças. Entretanto, há outras dúvidas que desmoronam sob o peso das evidências. Isto foi o que aconteceu com a dúvida de João. Jesus deu a João boas evidências – feitos miraculosos verídicos – para questionar suas dúvidas.

Dúvidas virão. Isto é um fato. Mas não é algo que os cristãos devam temer. Lembre-se de João e levante suas dúvidas, então se lembre de Jesus e questione-as.


Fonte: NAPEC

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

As redes sociais e o Pão da Vida

A palavra “alimento” tem um significado bem interessante: é tudo aquilo que serve para o sustento da vida. Num sentido figurado, podemos também definir como tudo aquilo que serve para desenvolver as faculdades intelectuais, ou ainda, recursos necessários ao sustento, habitação, vestuário, educação de uma pessoa, a que se obrigam parentes de certo grau: os alimentos são fixados em função das necessidades daquele que os reclama e dos meios daquele que os dá. Logo, não é difícil perceber o óbvio: o ser humano precisa de alimento. A grande questão é a fonte de onde vem esse alimento, e o que buscamos para ter a fome saciada.

Vemos nos dias de hoje uma busca desenfreada por um tipo peculiar de alimento. Quando digo isso, vem à mente a imagem de uma criança chorando por desejar ser amamentada no peito de sua mãe, ou uma bela mamadeira para acalmá-lo. O que a criança faz para conseguir se alimentar? Chora, berra, grita… ou seja, ela quer chamar atenção para uma necessidade: ela está com fome! E o que os pais desesperados fazem? Providenciam para que ela fique satisfeita.

Só que o grande problema hoje é justamente o que comentamos anteriormente. Onde o homem tem buscado saciar sua fome (a fonte), e o que ele tem buscado como alimento (o tipo). Daí, me deparei com algo que, particularmente, tem me incomodado nesses últimos dias: as redes sociais. Esse instrumento que tem o poder de ser uma benção/maldição em nossas vidas, e é algo tão presente no nosso dia-a-dia (quem sabe você está lendo este artigo através de um link de rede social, perceba que ironia!).

As pessoas tem fome de atenção e as redes sociais têm mostrado isso claramente. Das histórias mais interessantes até as mais inúteis e ridículas, vemos a necessidade do ser humano de querer ser visto, de querer ser notado. É como a criança que, quando tem fome, começa a berrar. E quantos berros temos ouvido nas redes sociais. Isso nos mostra a real necessidade que o ser humano tem: de ter sua verdadeira fome saciada. A fome de Deus, de conhecimento do seu ser, seus planos. Afinal, qual é o pai que quando vê seu filho com fome, não o alimenta?

Lembro-me das palavras do nosso Senhor Jesus Cristo, quando ele ensina “E qual o pai  dentre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente?  Ou também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?  Pois, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (Lucas 11:11-13).

Jesus mostra algumas necessidades que o ser humano tem e traz as respostas:

1) O Pai dá e só Ele tem o alimento certo, o Seu Espírito;
2) O ser humano não sabe se alimentar sozinho; e
3) Quando pedimos ao Pai o alimento verdadeiro, Ele nos dá graciosamente.

O ser humano clama por atenção, por fome. E tem gritado de maneira desesperada para ser notado, por uma fome que ele nem tem noção de como ou de onde vem. E tem buscado refúgio na internet. O problema é que essa via é inconstante. Num dia você está plenamente satisfeito, no outro, totalmente desanimado. Li uma vez uma frase numa rede social que dizia “o (citava o nome da rede social) vai ser a maior prova diante de Deus, de que o homem tinha tempo para orar e ler mais a bíblia, ou seja, conhecer mais do seu Senhor. Não haverá desculpas no grande dia”.

Jesus é o Pão da Vida. Ele diz “Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome; e quem crê em mim nunca terá sede.” (João 6:35). Nosso Senhor Jesus tem, e é o nosso alimento completo. Alimento para a nossa alma. Aquele que verdadeiramente satisfaz o coração, sendo gratos e plenos de alegria, diante Dele. Perceba que ele se define como pão que alimenta e que mata a sede. Aí nos perguntamos: pão mata a sede? Ora, num sentido espiritual, sim! Como se prepara um simples pão, por exemplo? Para dar liga à massa, não utilizamos somente farinha de trigo no preparo. Usamos água também. Logo, o pão tem água na sua composição, e num sentido espiritual, mata a nossa sede. Jesus traz a verdadeira saciedade em nossa alma. Nossos anseios, medos, dificuldades, essas nossas “fomes” são plenamente satisfeitas Nele, no verdadeiro alimento que é Cristo, o Pão da Vida.

Possamos dedicar mais tempo numa alimentação saudável e que realmente gere vida em nós, o alimento da Palavra, que é Jesus Cristo. O mundo só oferece guloseimas que engordam, não alimentam. Aproveitemos mais o nosso tempo ficando mais on-line com nosso Salvador, em conexão direta com a Bíblia Sagrada.


FONTE: NAPEC

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Quando Jesus salva alguém, muda tudo

O texto abaixo foi extraído do livro Isso Muda Tudo, de Jaquelle Crowe, futuraolançamento da Editora Fiel.

Alguma coisa já mudou a sua vida?

Eu consigo pensar em algumas coisas que mudaram a minha. O nascimento do meu irmão mais novo, por exemplo. O meu primeiro emprego. Minha mudança para o Texas. Descobrir que a minha avó estava com câncer. Passar no meu primeiro exame de motorista. Ser aceita na faculdade. Enviar o meu primeiro artigo para TheRebelution.com.

Sei que você também passou por muitos momentos que mudaram a sua vida. Você começou a frequentar uma nova escola, ganhou o primeiro carro, conheceu alguém famoso ou foi para algum lugar legal. Você sabe quais foram esses momentos. Desde os mais impressionantes até os que pareciam não ter valor algum, todos nós já tivemos esses momentos extraordinários que mudaram o nosso ponto de vista e, de alguma maneira, também a nossa vida. Deram-nos novos rumos ou nos colocaram em novos caminhos.

Mas, embora esses momentos tenham deixado marcas importantes em nossa vida, nunca nos mudaram por completo. Continuamos a ser as mesmas pessoas. Continuamos a ter a mesma aparência, a falar da mesma maneira e a acreditar na maior parte de tudo aquilo em que acreditávamos.

Isso é o que faz com que Jesus seja diferente.
Jesus muda tudo na vida de uma pessoa, tanto as coisas que são óbvias como aquelas que ninguém vê. Ele transforma o preto e o branco em cores que brilham e sacode os que dormem para que acordem totalmente. Os seguidores de Jesus não vivem mais da mesma maneira que viviam antes de começar a segui-lo. Não conversamos sobre as mesmas coisas nem lemos mais os mesmos livros. Não continuamos a nos vestir ou agir da mesma maneira que antes. Jesus renova as pessoas por completo. Ele ressuscita aqueles que estão espiritualmente mortos e faz com que tenhamos uma vida emocionante, bela e abundante.

Existe um Problema
Mas é aqui que encontramos um problema. Existem pessoas em todo o mundo – celebridades de capas de revistas, a mãe que leva o filho para jogar futebol, a pessoa  que usa o armário ao lado do seu – que afirmam seguir Jesus, mas que, de fato, não seguem. Dizem ter um coração dedicado à busca apaixonada por Deus, mas não ocorrem mudanças em suas vidas. Vidas indiferentes. Vidas que se confundem, se misturam e se moldam ao mundo. Jesus não mudou nada em suas vidas.

E esse é um problema que está crescendo cada vez mais. Drew Dyck, autor e editor cristão, certa vez ouviu a seguinte  mensagem  em  uma  conferência  de  jovens:  “Ser cristão não é difícil... Você não vai perder seus amigos ou deixar de ser popular na escola. Nada vai mudar. Sua vida será a mesma coisa, e ainda muito melhor”. Drew ficou chocado com isso, mas os adolescentes, não. Na verdade, eles nem estavam prestando atenção. Estavam jogando Doritos uns nos outros. Foi inevitável que Drew pensasse: “E por que eles deveriam prestar atenção? Quem se importa com algo que não envolve aventura, sacrifício ou risco?”.

Se Jesus não muda nada, eles estão certos. Então, quem se importa com o cristianismo? Mas o oposto também é verdadeiro. Se Jesus muda tudo, vale a pena arriscar tudo para segui-lo. E a verdade é esta. Se você aprender apenas uma coisa neste livro, que seja o seguinte: Jesus não tem seguidores sem convicção. Ele exige tudo. Quando ele salva alguém, muda tudo. A pergunta inevitável é apenas esta: Como?

Como Isso Mudou a Vida de Paulo
Conheça Paulo. Ele nasceu como você e eu – pecador com um pequeno punho cerrado em rebelião contra Deus; esse punho, então, cresceu e tornou-se um punho gigantesco que declarou: “Odeio tanto Jesus que vou perseguir seus seguidores”. Como um inimigo imensurável de Jesus, Paulo queria acabar com seus seguidores. Ele queria que os cristãos fossem mortos e trabalhava para isso a todo instante. Até que Jesus o encontrou e disse: “Paulo, você é meu” (At 9). Como um interruptor que é ligado de repente, aquele que odiava Jesus tornou-se um seguidor dele.

Tudo na vida de Paulo mudou rápida e radicalmente.
Sua vida, seus sonhos, suas ideologias, paixões, motivações e seu trabalho foram virados do avesso, transformados de uma forma irreversível. Antes era um perseguidor de cristãos; agora, seu maior defensor. Ele abandonou sua antiga vida e passou a seguir Jesus em uma vida nova e muito mais feliz, repleta de missões globais e plantação de igrejas, pregando sobre Jesus a qualquer um que quisesse ouvir.

O Espírito de Deus também o inspirou a escrever 13 livros do Novo Testamento. Em um deles, a carta à igreja na antiga cidade de Filipos, Paulo definiu o que é um seguidor de Jesus – um cristão. A definição é longa, mas completa. Leia com atenção.

Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos. (Fp 3.8–11)

O que é um cristão?
Segundo Paulo, um cristão é alguém que faz seis coisas: (1) valoriza Cristo, (2) desvaloriza todas as outras coisas, (3) deposita fé em Cristo somente, (4) conhece Cristo, (5) sofre por ele e (6) torna-se como ele.

Seis coisas que um cristão faz (segundo Paulo)
1. Valoriza Cristo;
2. Desvaloriza Todas as Outras Coisas;
3. Deposita fé em Cristo Somente;
4. Conhece Cristo;
5. Sofre por Ele;
6. Torna-se como Ele.


Escritora, editora do The Rebelution e podcaster no Age of Minority. Autora de ‘This Changes Everything: How the Gospel Transforms the Teen 

Fonte: Ministério Fiel

domingo, 18 de fevereiro de 2018

“Adorar a Jesus é idolatria”


Adorar a Jesus é idolatria,” de acordo com a Sociedade Torre da Vigia [STV]. De acordo com essa entidade religiosa, “a Bíblia deixa bem claro […] que a adoração — no sentido de reverência e devoção religiosas — deve ser dirigida unicamente a Deus. Moisés o descreveu como ‘um Deus que exige devoção exclusiva’.” [É correto adorar a Jesus? – Despertai, 2000, pp.27]. Oferecer adoração a Jesus Cristo seria uma violação desse princípio, e portanto, um ato de idolatria. De acordo com a STV, Jesus é digno da nossa homenagem, mas não da nossa adoração, afinal, apenas Jeová é digno de adoração.

Introdução – O Argumento da STV

De acordo com a STV, o termo recorrentemente usado no NT para descrever aquilo que os cristãos chamam de adoração é na verdade um ato de reverência apenas, uma prestação de homenagem. Em Hb.1.6, por exemplo, a Tradução do Novo Mundo, a bíblia produzida pela STV, evita o termo adoração e adota o a expressão prestar homenagem: “Mas, ao trazer novamente o seu Primogênito à terra habitada, ele diz: E todos os anjos de Deus lhe prestem homenagem.” [TNM]. A justificativa para essa tradução se encontra no fato de que, de acordo com a STV, o termo προσκυνέω (proskynéö) usado nesse verso pode significar tanto adoração (no sentido religiosos) como uma reverente homenagem (sem sentido religioso).

O primeiro sentido, de acordo com a STV é claramente visto em Mat.4.10, no qual lemos: “Jesus disse-lhe então: “Vai-te, Satanás! Pois está escrito: ‘É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.’” [TNM]. Já o segundo sentido é encontrado em 1Reis, no qual a Septuaginta [LXX], a tradução grega do AT, usa προσκυνέω para descrever a atitude de Natã diante de Davi: “Informaram imediatamente o rei, dizendo: “Aí está Natã, o profeta!” Depois ele entrou perante o rei e prostrou-se diante do rei com o rosto por terra.” [TNM].

De acordo com esses dois exemplos é possível perceber um pouco da abrangência semântica do termo προσκυνέω, que é realmente usado sem qualquer conotação religiosa. A questão é, portanto, relacionada ao critério que se define quando o sentido religioso está presente e quando o sentido não-religioso de προσκυνέω está sendo utilizado. Para a STV, o critério é simples: Se o termo προσκυνέω é usado em referência a Deus o sentido religioso deve estar presente. Se o mesmo termo é usado em referência a qualquer outra pessoa o sentido não-religioso pode ser utilizado de acordo com o contexto. Entretanto, a grande pergunta que fazemos é: Como é que a STV sabe que o termo quando aplicado a Cristo nunca tem sentido religioso? Se ambos sentidos são possíveis, qual é o critério a ser usado para definir o sentido expresso pelo autor quando Cristo é o objeto do verbo προσκυνέω?

Uma coisa é afirmar que o termo προσκυνέω pode conotar uma ação não-religiosa, outra é definir que tal conotação acontece em todas as ocasiões na qual os autores se referem a Cristo. Infelizmente, a STV não nos oferece qualquer explicação sobre o critério que usam para definir que o sentido religioso nunca acontece em referência a Cristo, e comete quatro equívocos metodológicos ao introduzir sua teoria semântica de προσκυνέω:

(1) Análise seletiva e pressuposta das evidências: Poucos versos são examinados e apenas aqueles que favorecem a interpretação esperada são tratados. A STV encobre as dificuldades para valorizar a própria conclusão e com isso induz o indouto a pensar que tal análise é satisfatória e que tal conclusão é válida. Na intenção de responder a pergunta, “Jesus recebeu adoração?“, a STV parte do ponto de vista que Jesus não pode receber adoração e analisa seletivamente a evidência léxica e comete a falácia de círculo viciosos: Jesus não recebe adoração no NT, por que Jesus não pode receber adoração.

(2) Citação fragmentada: Quase nenhum respaldo léxico é apresentado satisfatoriamente nos artigos da STV. Por exemplo, no artigo Jesus Cristo do livro Raciocínios, em Hebreus 1.6, o autor apresenta apenas parte da definição de προσκυνέω de acordo com o BAGD, e apenas a parte que contribui com o sentido favorecido pela instituição: “A palavra grega traduzida ‘adorar’ é pro·sky·né·o, que A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature diz que também era “usada para indicar o costume de prostrar-se diante duma pessoa e beijar-lhe os pés, a orla da sua veste, o chão”. (Chicago, EUA, 1979, Bauer, Arndt, Gingrich, Danker; 2.a ed. em inglês; p. 716).” A definição apresentada pelo BADG, que tem cinco diferentes nuances, é largamente mais extensa e completa do que a citação fragmentada do artigo dá a entender. Quando a STV cita pela metade para valorizar sua preferência, ela esconder do leitor evidências importantes. Por exemplo, a frase citada do BAGD foi intencionalmente reduzida para validar as conclusões teológicas da STV. É fato que a palavra προσκυνέω “usada para indicar o costume de prostrar-se diante duma pessoa e beijar-lhe os pés, a orla da sua veste, o chão“, mas a STV omite o fim da mesma sentença que afirma que tal atitude era realizada “pelos Persas na presença do seus deificados reis e os Gregos o faziam diante de uma divindade ou alguém santo“. Em outras palavras, a STV picota do léxico apenas a informação que lhe convém e esconde o fato de que o BAGD não está falando de um sentido não-religioso do termo. Na verdade, nessa frase o BAGD está enfatizando exatamente o contrário: o ato de prostrar-se diante de uma pessoa e beijar-lhe os pés era uma atitude de religiosa direcionada a divindades ou pessoas tidas como divinas.

(3) Falsa dicotomia: Outro problema latente nas publicações da STV é a falsa dicotomia: Ou A ou B; Ou o termo tem sentido religioso ou não-religioso. Será que προσκυνέω tem campo semântico tão restritivo? Será quando o autor intenciona destacar o sentido de adoração de προσκυνέω ele rejeita completamente o sentido de homenagem ou respeito? Como é possível saber se a ação de prostrar-se é exclusivamente religiosa? Novamente, a STV não apresenta qualquer evidência de que tal conclusão é plausível.

(4) Teologia como base para definição léxica: Em última análise, a STV usa a própria teologia como base para as conclusões léxicas que defende, sem qualquer fundamentação léxica ou sintática. Nenhum estudo do vocábulo é apresentado, ou qualquer discussão léxico-morfológica é apresentada. Na verdade, a evidência apresentada é presumida como suficiente e a conclusão teológica de que Cristonão pode receber adoração guia o estudo do termo de tal forma que Cristo nunca é adorado no NT.

Tendo dito isso, nós precisamos realizar um estudo de vocábulo de προσκυνέω, apresentado seu uso dentro e fora do NT para então oferecer alguns critérios contextuais e morfológicos (não teológicos) que podem auxiliar a identificação do sentido de προσκυνέω no texto bíblico.

A. Análise Diacrônica de προσκυνέω

Termos específicos de um determinado idioma normalmente mudam de sentido e uso no decorrer do tempo. A origem de um determinado termo explica nada mais do que a origem do termo, afinal, com as mudanças culturais e temporais a linguagem, que é volátil, pode atribuir novos sentidos a determinados termos.

Por exemplo, o termo χειροποίητος usado por Paulo em Ef.2.11, era usado na literatura Grega Clássica em como descrição de algo feito pelas mãos, como uma vara (Hdt.1.195) ou um até mesmo um lago (Hdt.2.149). Entretanto, na produção da LXX, o termo foi aplicado como descrição de ídolos feitos por mãos humanas (Lv.26.1, 30; Dn.5.4; 5.23, 6.28; Bel.1.5; Jdt.8.11) de tal modo que eventualmente o termo veio a significar um ídolo propriamente dito (Isa.2.18; 10.11; 16.12; 19.1; 21.9; 31.7, 46.6; Wis.14.8) sem que o uso de εδωλα (ídolo) fosse necessário para clarificar o sentido do termo. Em outras palavras, aquele termo que era usado para descrever qualquer coisa feita por mãos humanas no grego clássico, descreve exclusivamente a ídolos na LXX, e passa a ter significa estritamente religioso sem que qualquer intenção religiosa fosse necessária denotada por χειροποίητος no literatura Grega Clássica.

Por isso, nessa seção apresentamos uma análise diacrônica (i.e. através do tempo) para demonstrar como o termo foi usado historicamente e como diferentes sentidos emergem do mesmo. Em nossa apresentação, nós iniciamos com os mais antigos e conhecidos usos do termo e prosseguimos para o período contemporâneo e posterior do NT.

1. O Uso de προσκυνέω na Literatura Grega Clássica

A origem do termo grego προσκυνέω é incerta. Conjectura-se que o termo “originalmente não era nada mais que o termo grego para descrever um fenômeno da vida oriental” (Kittel, Gerhard, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964), pp.759). O termo é formado por duas palavras gregas: (1) πρός, que pode denotar o sentido de “ante de” e (2) κυνέω, que normalmente descreve o ato de “beijar”; que pode sugerir como o termo era usado. A idéia de prostrar-se é ausente se alguém assume que os termos que formam  προσκυνέω são compreensivos na determinação do significado do mesmo. É provável, entretanto, que a idéia de prostrar-se seja implícita no mesmo, pois para beijar os pés de alguém é necessário curvar-se ante ele para fazê-lo. Homero (9-8 séc. a.C.), por exemplo, usa o termo para descrever a atitude de Ulisses e Agamenon que beijam a terra após uma viagem bem sucedida (Hom. Od., 4, 522; 5, 463; 13, 354), o que também mantém implícito o sentido de prostrar-se.

É por isso que na Literatura Grega Clássica [LGC] o termo προσκυνέω é normalmente usado em referência ao costume oriental de prostrar-se ante a reis e superiores, como um ato de respeito e reverência. Herodoto, por exemplo, conta de um ocasião na qual um barco em que Xerxes estava, estava indo à pique. Tomando conhecimento disso, Xerxes pergunta ao comandante se era possível se livrar de alguma coisa para evitar o naufrágio. O comandante por sua vez diz que não há nada no barco que pudesse resolver o problema, exceto eles mesmo. Ao ouvir isso Xerxes teria dito:

“Agora, você precisam provar sua dedicação pelo seu rei, pois me parece que minha salvação depende de vocês” – Ouvindo isso, eles prostraram-se e pularam no mar. O navio, agora muito mais leve, foi desse modo seguro para a Ásia. (Herodotus, Herodotus, with an English Translation by A. D. Godley, ed. A. D. Godley (Medford, MA: Harvard University Press, 1920, Hdt.8.118).

Nesse trecho, não apenas reverência é percebida no ato de prostrar-se, mas também submissão, obediência e reconhecimento de autoridade. A priori, nenhum sentido religioso é evidente aqui. Entretanto, de acordo com BDAG, com esse ato, aqueles que recebem a honra “estão sendo reconhecidos como pertencentes a um reino sobre-humano” (William Arndt, Frederick W. Danker, and Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: University of Chicago Press, 2000), p.882.), o que se sabe ser verdadeiro no caso de Xerxes. Usos similares a esses são recorrentes na LGC (Appian, Mithrid. 104 §489: Pompey; Galen, Protr. 5 p. 12, 2ff ed. WJohn: Sócrates, Homero, Hipócrates, Platão).

Além desse tipo de uso, os gregos também προσκυνέω para descrever um ato de reverente de adoração a divindades. De acordo com o Liddell-Scott-Jones [LSD] o termo é frequentemente usado para descrever o ato de “fazer reverência aos deuses ou suas imagens, cair e adoração” (Liddell, Henry George, Robert Scott, Henry Stuart Jones, and Roderick McKenzie. A Greek-English Lexicon. Oxford: Clarendon Press, 1996, p.1518). Herodoto (c. 484–425 a.C.) usa o termo recorrentemente para descrever um ato de adoração, observe:

O memorial do seu nome deixado por ele foi o pátio oeste do templo de Hefesto; lá ele colocou duas estátuas de 41 pés de altura; o mais setentrional dos mesmos os egípcios chamam de Verão, e o meridional de Inverno; o que eles chamam de Verão, eles adoram e tratam bem, mas fazer o oposto à estátua chamada Inverno. (Hdt.2.121; Herodotus.Herodotus, with an English Translation by A. D. Godley. Edited by A. D. Godley. Medford, MA: Harvard University Press, 1920.)
Uso similar é também utilizado por Ésquilo (m. 456 a.C.) que afirma:
Mas naquela noite deus despertou inverno antes do seu tempo e congelou o fluxo de sagrado Strymon de costa a costa. Muitos homens que antes tinham os deuses em nenhum estima, implorou-los, em seguida, em súplica, adorando a terra e ao céu. Mas depois que nosso anfitrião terminou sua fervorosa invocação dos deuses ele aventurou-se a atravessar a corrente ligada à gelo (Aeschylus, Aeschylus, with an English Translation by Herbert Weir Smyth, Ph. D. in Two Volumes. 1. Persians, ed. Herbert Weir Smyth (Medford, MA: Harvard University Press, 1926).

Nessa citação, a expressão “a terra e ao céu” não representa a terra e céu como lugar, mas como metonímia o autor se refere a todo o panteão grego, como clarifica a sentença seguinte. A fervorosa adoração dos deuses é a descrição dessa reverência apresentada aos deuses gregos. Esse sentido é comum e frequente na LGC e frequentemente o objeto de προσκυνέω é acusativo (cf. S.OC1654, A.Pers.499, Ar.Eq.156; A.Pr.936; Pl.R.451a; S.Ph.776), como era de se esperar desse tipo de construção. Com conceito similar, os gregos também usavam προσκυνέω em reverência a lugares sagrados (Id.El.1374; Pl.R.469b; D.19.314). Xenofonte (430-355 a.C),  faz um interessante uso do termo, observe:

Como sinais de essas vitórias podemos, de fato, ainda contemplar os troféus, mas o mais forte testemunho para eles é a liberdade dos estados em que nasceram e foram criados; por que não se deve prostrar-se ante a nenhuma criatura como mestre, mas  aos deuses apenas. (Xenophon, Xenophon in Seven Volumes, 3, trans. Carleton L. Brownson (Medford, MA: Harvard University Press, Cambridge, MA; William Heinemann, Ltd., London., 1922) )
Como é evidente,  προσκυνέω é utilizado como terminus technicus para descrever a adoração de divindades na LGC. Do ponto de vista histórico, o uso [de προσκυνέω] mudou [com o tempo] de um gesto externo para a atitude interior. Os primórdios devem ser procuradas nos trágicos. Assim, Neoptolemos em Soph. V 6, p 760 Phil., 656 f. manifesta o seu respeito ao prostrar-se ante a  Héracles […]. A palavra torna-se mais geral mais tarde,embora o uso original tenha persistido. A deificação dos governantes, que começou a partir de Alexandre, o Grande e culminou com o culto do imperador de Roma, sem dúvida, teve uma influência decisiva na história da palavra. (Kittel, Gerhard, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964, pp.759-760)

2. O Uso de προσκυνέω na Septuaginta

A datação da Septuaginta (LXX) é um assunto controverso, mas sabe-se que não tenha sido produzida antes do 2 séc a.C. Nesse período, o termo προσκυνέω já era frequentemente utilizado para descrever o ato de prostar-se como um reverente ato de reconhecimento de autoridade e/ou divindade. O termo é utilizado 171 vezes e traduz o termo hebraico hwh 164x, que sugere que na LXX προσκυνέω majoritariamente inclui o sentido de prostrar-se. O termo hebraico hwh é normalmente usado para descrever o ato de prostrar-se ao chão (Gen.18.2), ante a algo (Dt.4.19) ou alguém (Gen.27.29). É também utilizado para descrever o ato de implorar (1Sm.2.36), suplicar (Gn.33.7), bem como o ato de adoração ao Deus de Israel, como um de reverência e honra, como feito aos reis humanos (Sal.5.8)  ou como um ato de adoração exclusiva a YHWH (Sal.99.5). De modo interessante, na LXX προσκυνέω engloba todos esses sentidos e traduz todos esses versos.

Eventualmente, προσκυνέω também traduz o termo hebraico sagar, que  normalmente denota adoração (Is.44.15-17, 19). Também traduz nashaq usado para descrever o ato de beijar (1Re.19.18), abad também usado para descrever adoração (Sal.98.7) e karaque reflete o prostrar-se diante de um rei (Est.3.2) ou do próprio Deus em reverente adoração (Sal.22.30; 72.9).

Cerca de um terço dos usos de προσκυνέω na LXX é usado para descrever o sentido de adoração (Lust, Johan, Erik Eynikel, and Katrin Hauspie. A Greek-English Lexicon of the Septuagint : Revised Edition. Deutsche Bibelgesellschaft: Stuttgart, 2003.), seja a YHWH (Gen. 22:5; 24:26, 48, 52; Ex. 4:31; 24:1; Dt. 26:10; Sal. 5:7; 29:2) ou a falsos deuses (Ex. 20:5; 23:24; 34:14; Dt. 4:19; 1Re. 22:53; 2Re. 5:18; Is. 2:8; 44:17). Isso acontece por que o termo hebraico hwh também é usado no AT como terminus technicus para veneração de divindades. Quando προσκυνέω é usado dessa forma, ele é usado como sinônimo de λατρεύεω (latreúö – adorar), com sentido estritamente religioso.

Na LXX προσκυνέω é recorrentemente usado para descrever o ato de prostar-se ante a alguém importante ou superior, como Davi o fez ante a Saul (1Sa 24:9), Bateseba e Natã ante a Davi (1Re. 1:16, 23, 31); Jacó ante a Esau (Gn. 33:3–7); os filhos de Jacó ante a José (Gn. 37:9, 10; 42:6; 43:26, 28) e Rute ante a Boaz (Rt. 2:10). O que é interessante nesses usos é que “mesmo onde προσκυνεν parece ser não mais do que um gesto de gratidão ou um ato de respeito afetuoso, está sempre expresso no ato o reconhecimento de aquele que recebe tal honra é instrumento de Deus” (Gerhard Kittel, Geoffrey W. Bromiley, and Gerhard Friedrich, eds., Theological Dictionary of the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1964), p.761).

Um fenômeno interessante a ser observado na LXX é que eventualmente o objeto de προσκυνέω ao invés de ser acusativo, como vimos na LGC, é utilizado o dativo. Normalmente, o dativo não é utilizado como objeto direto, exceto na LXX quando utilizado com verbos de adoração como προσκυνέω. A razão para essa distinção pode ser explicada pela influência semítica na produção do texto da LXX e serve para demonstrar a liquidez do idioma. Esse uso inovador aqui, torna-se mais comum com o tempo e, como veremos a frente, desempenha um interessante papel no NT.

3. O Uso de προσκυνέω no Grego Koine (fora do NT)

O grego Koine, também conhecido como grego comum, era o idioma falado no nível de conversação informal. Esse tipo de grego é normalmente datado entre o 3 séc. a.C. e o 3 séc. d.C. Nesse período encontram-se muitos manuscritos em grego sobrevivente nos quais podemos verificar como προσκυνέω era utilizado. Destaca-se entre esses manuscritos, os Papiros de Oxirrinco, uma coleção de documentos datados do primeiro ao quarto século que contém cartas, lista de compras, porções de livros clássicos entre outras coisas.

Nesse período o sentido de respeito, reverência e submissão também é visto em προσκυνέω. Uma serva pode prostrar-se ante a seu senhor em reverente submissão (P Giss I. 1114,118 d.C.; BGU II. 42315, 2 séc. d.C). O termo é também usado sem objeto, i.e, como verbo intransitivo em descrição de atividades religiosas (P Par 4932, 161 d.C; Syll 807, P Tebt II. 4167,2 séc. d.C).

De modo geral προσκυνέω é empregado no primeiro século para descrever a veneração de divindades (cf. P Flor III. 33211) e nas inscrições Ptolomaicas, o termo jamais vem acompanhado de dativo como objeto direto (cf. OGIS 1845). Eventualmente o sentido de προσκυνέω é análogo a λατρεύεω (adoração) e a φοβέω (temor, medo, respeito) e é também usado como em referência a veneração de seres humanos, como no caso Trajano, o deificado imperador romano (cf. P Tebt II. 28622, 121–138 d.C). Como já mencionado, a adoração do imperador Romano atribuiu grande influência ao uso do termo, especialmente no primeiro século de tal modo que o προσκυνέω passou a ser usado como terminus technicus para adoração de divindades, sejam elas humanas, ídolos ou até mesmo para Deus. (Milligan, G., and James Hope Moulton. Vocabulary of the Greek Testament (Greek Edition). Peabody, MA: Hendrickson Pub, 1997, p.549).

4. O Uso de  προσκυνέω na Literatura Judaica

Na literatura judaica ‘contemporânea’ do NT, nós encontramos três diferentes fontes de informação: Filo de Alexandria (20 a.C. – 30 d.C) e Flávio Josefo (37-100 d.C) e a Literatura Rabínica (org. 2 séc?). Filo de Alexandria, usa προσκυνέω majoritariamente em descrição de um ato reverente ante a alguém superior. Quando Filo descreve a criação do homem, ele afirma que era necessário que o homem fosse o último a ser criado, pois assim poderia com isso impor terror/respeito entre a criação com sua presença, e completa: “Por que convinha que, assim que eles o vissem pela primeira vez eles o admirassem e  prestassem homenagem a ele como seu regente natural e mestre” (Charles Duke Yonge with Philo of Alexandria, The Works of Philo: Complete and Unabridged (Peabody, MA: Hendrickson, 1995), p. 13.). Nesse texto, προσκυνέω é usado de modo paralelo a φοβέω, como respeito, ou até mesmo a τιμάω (honra), mas não a λατρεύεω (adoração) com sentido religioso.

Entretanto, eventualmente Filo utiliza προσκυνέω em referência a adoração, veneração. Quando fala sobre o problema da pobreza, ele afirma:

E todos os pobres possuem uma terrível doença, o amor ao dinheiro, mas, não tendo eles mesmos riqueza alguma que pudesse ser digna da atenção deles, eles fixam sua admiração na riqueza alheia, e, com o propósito de oferecer adoração a ela, vão pela manhã para a casa daqueles que tem em abundância, como se fossem templos nobres onde estão indo para fazer orações, e suplicar bençãos dos seus donos como se fossem deuses. (Charles Duke Yonge with Philo of Alexandria, The Works of Philo: Complete and Unabridged (Peabody, MA: Hendrickson, 1995), p.536).

De modo interessante, em Filo προσκυνέω é usado com sentido de adoração, mas normalmente não é utilizada em referência à adoração verdadeira. Mesmo quando Filo utiliza em referência ao templo, dia da redenção ou a própria escritura (Leg. Gaj., 310; Vit. Mos., II, 23, 40) segue-se a isso uma advertência contra a idolatria (Decal., 4.).

Flávio Josefo usa προσκυνέω 98x e, diferente de Filo, segue mais de perto o padrão da LXX e o atribui à adoração de YHWH (Ant.6.55, 154; 7.95; Bell., 1.71, 2.341, 5.99), falsos ídolos (Ant. 6.2; Ag.Apion 1.239, 261) e da prática oriental de prostrar-se ante a alguém superior. É verdade que ele prefere utilizar σεβέω, τιμάω e θρησκεύεω para descrever a adoração do Deus de Israel (Ant., 3, 91; 8, 248; 9, 133; Horst, 113), mas  eventualmente προσκυνέω é usado com o mesmo sentido desses termos. Em um desses casos, Josefo conta a história de Doras, que junto com os amigos e com a intenção de assaltar Jonatas,
foram até a cidade [de Jerusalém], como se estivessem indo para adorar a Deus, enquanto tinham adagas debaixo de suas roupas, com isso conseguiam se misturar com a multidão (Ant. 20:164)
Josefo frequentemente utiliza προσκυνέω em relação para descrever o ato de prostar-se ante a um rei (Ant., 6, 285; 7, 187, 349, 354) ou um profeta (Ant., 8, 331) quando menciona um fato passado, seguindo provavelmente o texto da LXX, mas o evita quando descreve uma situação do seu próprio período (Bell., 2, 336, 350, 360). Ele também emprega προσκυνέω em referência tanto ao Templo (Ant., 13, 54; 20, 49; Bell., 2, 341; 5, 381) como à Torá (Ant., 12, 114; Ep. Ar., 177 and 179), e em ambos um sentido de respeito e apreço é apresentado, não o de veneração ou adoração. Josefo também o usa para descrever a veneração de Alexandre o Grande a νομα (o nome), uma provável referência ao Deus de Israel (Ant., 11, 331).

Na literatura Rabínica προσκυνέω, além de manter a idéia de respeito e reverência a pessoas importantes como aos próprios Rabis (b. Ket., 63a ; Str.-B., I, 519 on Mt. 9:18); j Pea, 1, 1 (15d, 28f); b. Sanh., 27b; Str.-B., I, 996 on Mt. 26:49), agora assume um sentido estritamente religioso não comumente encontrado em outros lugares. O termo é usado para descrever o ato da prostrar-se para orar (Str.-B., II, 259; cf. Lc.22.41). o Rabi Akiba (morr. c.134 d.C.) é descrito em várias ocasiões como se prostrando para orar (T. Ber., 3, 5 (6); Str.-B., II, 260), bem como o Rabi Gamaliel (morr. c.70 d.C.) (b. Sukka, 53a Bar; Str.-B., II, 261). Essa nuance, apresentada apenas eventualmente em outros lugares é aqui a descrição do uso religioso da mesma.

5. O Uso de προσκυνέω nos Pais Apostólicos

No período posterior ao NT, homens convertidos ao Cristianismo passaram a escrever a respeito da doutrina cristã para cristãos. Normalmente são chamados de Pais Apostólicos os líderes da igreja primitiva entre uma e duas gerações dos apóstolos, como por exemplo Clemente de Roma, Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna. Também se inclui alguns textos cristãos primitivos entre eles, como o Pastor de Hermas, Didaquê e a Carta a Diogeneto, pelo fato de terem sido escritas durante esse período.

Nesses documentos προσκυνέω tem sentido exclusivo de adoração, ou seja, denota o mesmo sentido de λατρεύεω, e normalmente descreve a adoração de deuses falsos, seguindo o costume de Filo e Josefo. Clemente de Roma (morr. c. 99 d.C.), por exemplo, conta que no passado “éramos deficientes de conhecimento, adorando pedras, madeira, ouro, prata e bronze produto de mãos humanas; e nossa vida era nada mais do que morte” (2Cl.1.6). Em outro lugar na mesma carta, Clemente também afirma que os cristãos “não devem adorar deuses mortos” (2Cl.3.1). Do mesmo modo, na carta a Diogeneto lemos seu autor alerta seus leitores sobre os ídolos, feitos por mãos humanas, que eles adoram (Diog.2.4-5). O mesmo pode ser dito do que encontramos no livro Martírio de Policarpo, que o descreve como o mestre de Esmina: “Este é o mestre da Ásia, o pai dos Cristãos, e aquele que destruiu os seus deuses, e que vem ensinando a não sacrificar ou adorar os deuses” (MPo 12.2).

Apenas uma única vez προσκυνέω não é usado sem referência a falsos ídolos. No livro que descreve o Martírio de Policarpo, o autor descreve um discurso de Policarpo nos seguintes termos:

“Por que a Ele [Cristo], nós adoramos como Filho de Deus, mas aos mártires, como discípulos e seguidores de Cristo, nós dignamente os amamos por sua extraordinária afeição ao nosso Rei e Mestre, de quem nós também seremos feitos parceiros e co-díscípulos com eles” (MPo 17.3).

Nesse uso, fica evidente a distinção entre respeito, homenagem e reverência adoração. Jesus Cristo era adorado, os apóstolos, discípulos e mártires apenas respeitosamente amados.

6. Sumário e Conclusão

Como fica evidente em nossa demonstração acima, o termo προσκυνέω foi usado com significativa e ampla gama de significados. Ao que parece, o termo foi usado primariamente para descrever o ato de beijar, como sinônimo de κυνέω. Em Homero, o ato de beijar o chão também incluia o conceito de prostrar-se que com o tempo parece ter se tornado a  ênfase do termo.

O ato de prostar-se também passou a incluir o sentido de respeito, submissão e reconhecimento de superioridade ante autoridades. Apenas eventualmente e especialmente na LXX, o termo é usado para descrever o ato de prostrar-se para suplicar favor ou implorar ante a uma autoridade ou alguém reconhecido como superior, ou até mesmo entre iguais com a implícita atitude de humildade.

Entretanto, προσκυνέω é recorrentemente usado para descrever um ato de adoração, seja entre os pagão, seja entre os judeus. Na LXX e na literatura judaica o termo descreve tanto a verdadeira adoração de YHWH como a adoração de falsos deuses. Em Josefo e Filo o termo majoritariamente é usado para descrever a falsa adoração. Entre os gregos, o termo descreve a adoração de entidades divinas, seres humanos, ídolos, templos e objetos sagrados e serve como terminus technicus para adoração. Posteriormente, o termo passa a descrever também o ato de prostrar-se para orar, como descrição estritamente religiosa mas desprovida de implícito conceito de adoração ou veneração. Afirmar que no período do NT o termo era desprovido de sentido religioso, ou que continha sentido religioso apenas quando aplicado a Deus, é evidentemente contrária a evidência apresentada.
O que é interessante em nossa análise é notar que o sentido do termo προσκυνέω no período próximo à produção do NT é usado largamente como descrição de atividades religiosas. É digno de nota que os cristãos posteriores ao NT usaram o termoexclusivamente com sentido religioso de adoração. Também fica evidente que em alguns casos o sentido de adoração, submissão e respeito aparecem na mesma ocasião, demonstrando que a dicotomia apresentada pela STV é falsa e deve ser rejeitada. Também vimos que o campo semântico do termo é muito mais abrangente que o assumido pela STV, o que demonstra que a análise das evidências feita por essa instituição trata-se apenas de uma super-simplificação desnecessária.

B. O Uso de προσκυνέω no NT

Προσκυνέω é 60x no NT em 54 versos, sendo 22 versos em Apocalipse, 13 em Mateus, 7 em João, 4 em Atos, 3 em Lucas, 2 em Marcos, 2 em Hebreus e 1 em 1Coríntios. Diferentes sentido são expressos pelo termo e, portanto, a análise atenta dos mesmos é necessária. Quando προσκυνέω é usado sem objeto o termo é usado como terminus technicus para descrever o ato de  adoração ao Deus Verdadeiro (Jo.4:20; 12:20; At.8:27; 24:11; Ap.11:1). Normalmente προσκυνέω tem como objeto um termo no acusativo, como esperado nesse tipo de construção. Entretanto, seguindo o uso apresentado na LXX, também encontra-se no NT o uso de dativo como objeto direto de προσκυνέω. Esse fenômeno não é incomum no NT, aliás, verbos como πιστέω (crer, confiar), ύπακούω (obedecer), διακονέω (servir), λατρέυω (adora), εχαριστέω (agradecer) e κολουθέω (seguir) frequentemente são acompanhados por dativos como objetos direto. De modo interessante, são todos verbos relacionados a algum comportamento associado a Deus. O dativo talvez tenha sido preferido com esses verbos por que é o caso grego que sugere relacionamento pessoal, e portanto, apropriado para descrever atividades religiosas dirigidas a Deus.

É interessante notar que no NT a adoração apresentada com προσκυνέω quando seguida de acusativo, normalmente descreve o tipo de adoração falsa (Ap.9.20; 13.8, 12; 14.9, 11; 20.4), ao passo que a adoração a Deus é normalmente descrita com dativo (Jo.4.21; 1Cor.14.25; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 19.10; 22.9). Entretanto, esses usos não são exclusivos, afinal a adoração a Deus também é apresentada com acusativo (Mat.4.10), do mesmo modo que a adoração de falsos deuses também é apresentado com dativo (At. 7.43; Ap.13.4; cf. v.15; 16.2; 19.20). Entretanto, é possível que o dativo seja usado  quando uma relação pessoal está em vista, ao passo que o acusativo apresenta uma adoração mais distante. (Wallace, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics. Enlarged ed. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1997), pp.172-173). Em outras palavras, quando o dativo é usado o sentido de adoração pessoal é enfatizada ao passo que com o acusativo a adoração pessoal não é a ênfase da descrição.

1. Προσκυνέω Aplicado a Deus

Cerca de 23 vezes προσκυνέω é usado em relação a Deus no NT (Mat 4.10; Lc.4.8; Jo.4.21, 23*2; 4.20*2, 24*2; 12.20; At.8.27; 24.11; 1Cor.14.25; Hb.11.21; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 11.1; 14.7; 15.4; 19.4, 10; 22.9). Em todos esses texto, sem excessão, o sentido de προσκυνέω é de adoração.

2. Προσκυνέω Aplicado a Ídolos

Apenas uma vez no NT προσκυνέω é usado em referência a idolatria: Em Atos 7.43, lemos: “τος τύπους ος ποιήσατε προσκυνεν ατος” (imagens que vocês fizeram com o objetivo de adorar-las). Dificilmente προσκυνέω teria outro sentido aqui. Vale a pena notar que o dativo é utilizado como objeto nessa construção, ainda que a adoração seja completamente desprovida de pessoalidade. Talvez a intenção fosse um vínculo pessoal com a divindade.

3. Προσκυνέω Aplicado a Seres Humanos

No NT, ao contrário do que se pensa é apenas raramente aplicado a seres humanos, ao contrário da LXX, Josefo e Filo que o usam dessa forma com frequência. Três casos são interessantes a serem observados aqui: (1) Em Mat.18.26 lemos  δολος προσεκύνει ατ λέγων (o servo prostrou-se ante ele dizendo). Nesse caso vemos um uso paralelo àquele encontrado na LXX (2Sam.18.28) no qual o ato de prostrar-se é seguido de uma súplica. Nesse texto, alguns conceitos estão implícitos: (a) Existe da parte daquele que se prostra o reconhecimento da superioridade do outro, haja visto que ele é apresentado como servo ao passo que aquele diante quem ele se prostra é o senhor; (b) Existe por parte do servo um interesse genuíno e pessoal, como o dativo como objeto direto parece sugerir; (c) Não está presente qualquer conotação de devoção ou adoração, mas está implícito que o servo está sujeito à autoridade do seu senhor.

(2) Em Ap.3.9 lemos: “δο ποιήσω ατος να ξουσιν κα προσκυνήσουσιν νώπιον τν ποδν σου” (Eu farei com que eles venham prostrem-te ante a seus pés). Embora em Apocalipse a maioria dos usos de προσκυνέω são relacionados à adoração, é altamente improvável que esse seja o sentido aqui. Também é importante notar que o texto não fala de prestação de homenagem. A ênfase do texto recai sobre o devido reconhecimento de que a igreja de Filadéfia era de fato o povo de Deus. A sinagoga de Satanás, os seguidores dos Nicolaítas, um dia prostar-se-ão aos pés da Igreja da Filadéfia, não como adoração, nem prestação de homenagem, como derrotados. Eles serão humilhados por Deus e como derrotados colocados aos pés dos cristãos que mantém a sagrada doutrina dos apóstolos. Aqui προσκυνέω se refere ao ato de prostrar-se, mas esse ato é produzido por Deus contra a vontade dos mesmos, sugerindo sujeição não prestação de homenagem.

(3) Em Atos 10.25 lemos  Κορνήλιος πεσν π τος πόδας προσεκύνησεν (Cornélio prostrou-se aos seus [de Pedro] pés e adorou/prestou homenagem). Embora προσκυνέω tenha aqui sido em referência a um ser humano, dificilmente o sentido mais natural do termo está em uso. De fato, a expressão πεσν π τος πόδας  já explicita o fato de que Cornélio estava aos pés de Pedro. Portanto, προσκυνέω não inclui aqui, em nenhum sentido, o conceito de prostrar-se. Em que sentido então o termo é usado aqui? É difícil precisar se esse é um ato apenas de reverência ou adoração, entretanto, era algo que Pedro sentiu-se compelido a rejeitar (v.26). Caso fosse apenas uma homenagem, era algo que colocaria Pedro em um patamar que não lhe pertencia. Aliás, pela resposta de Pedro, fica evidente que esse é o caso: νάστηθι· κα γ ατς νθρωπός εμι (Levanta-te, pois eu sou homem como você). O ato de Cornélio foi entendido por Pedro como se Cornélio reconhecesse Pedro ao menos como alguém sobre-humano, uma atitude plenamente possível para um gentio, mesmo um piedoso como Cornélio. Se Pedro tivesse entendido a ação de Cornélio de modo equivocado, nós esperaríamos a explicação de Cornélio dizendo que era apenas um ato de reverência e nada além disso. Mas, não encontramos no texto nada parecido com isso. Tudo o que se pode dizer com segurança é que a atitude de Cornélio era algo que Pedro deveria rejeitar.

Vale a pena notar que resposta similar a essa foi dada por Paulo e Barnabé em rejeição ao reconhecimento de que eles eram deuses encarnadados em Listra (At.14.8-15): νδρες, τί τατα ποιετε; κα μες μοιοπαθες σμεν μν νθρωποι (Homens, que fazem? Nós somos de natureza humana como vocês). Ou seja, a atitude de Cornélio de alguma forma promoveu em Pedro a mesma reação que a multidão de Listra provocou em Paulo e Barnabé. Portanto, é possível que Cornélio aqui tenha oferecido a Pedro mais do que apenas respeito, ainda que não o considerasse como um deus. Certamente era algo ofensivo para Pedro receber, e não seria equivocado traduzir προσκυνέω como adoração, ainda que uma adoração desconexa de interesse pessoal. Favorece essa conclusão o fato de que o προσκυνέω não tem objeto direto explícito no texto, o que sugere que uma construção comum é esperada aqui com acusativo. Caso o interesse pessoal estivesse presente, o dativo deveria ser explícito.

4. Προσκυνέω Aplicado a Seres Angelicais

Apenas em duas ocasiões προσκυνέω é usado no NT em referencia a seres angélicos: (1) Em Ap.19.10 nós lemos: “κα πεσα μπροσθεν τν ποδν ατο προσκυνσαι ατ (Então caí prostrado ante aos seus pés para adorá-lo). Como no caso de Atos.10.25 a cena inicia com com o verbo πίπτω (cair, prostrar-se) o que sugere que προσκυνέω não denota o ato físico de prostrar-se, mas a ação realizada quando se está prostrado. Também é evidente pela expressão μπροσθεν τν ποδν (ante aos seus pés) que João, o apóstolo, jogou-se aos pés do anjo com o objetivo de adorá-lo. Nesse verso é impossível que o sentido seja diferente desse, afinal em sua repreensão a João o anjo diz: “τ θε προσκύνησον” (Adore a Deus). Note que o objeto de ambos os verbos é dativo (ατ; τ θε) que sugere que tanto a atitude de Pedro, quanto a atitude sugerida pelo anjo foram carregadas de interesse pessoal.

(2) Semelhantemente, em Ap.22.8 nós lemos: “πεσα προσκυνσαι μπροσθεν τν ποδν το γγέλου” (caí aos pés do anjo para adorá-lo). Novamente a ação é introduzida por πίπτω, o que sugere que προσκυνέω não é usado com o sentido de prostrar-se apenas. Novamente, João prostra-se ante ao anjo com o objetivo de adorá-lo e novamente é por ele repreendido com a expressão “τ θε προσκύνησον” (Adore a Deus). Novamente, o sentido aqui claramente  sugere adoração, claramente rejeitada pelo anjo que sabe que somente Deus pode receber adoração.

É importante notar que a dupla reação angélica em Apocalipse é deveras similar àquela encontrada em Pedro em Atos, do mesmo modo que a ação de João para com o anjo em Apocalipse é deveras similar àquela encontrada em Cornélio em relação a Pedro. Isso favorece nossa sugestão de que não seria correto traduzir προσκυνέω em Atos como um ato de adoração.

5. Προσκυνέω Aplicado a Jesus Cristo

Προσκυνέω é usado em referência a Jesus Cristo 16x no NT (Mat.2.2, 8, 11; 8.2; 9.18; 14.33; 15.25; 20.20; 28.9, 17; Mc.5.6; 15.19; Lc.24.52; Jo.9.38; Hb.1.6; Ap.5.14). Como já vimos esse termo grego carrega ampla gama de significado e no período do primeiro século προσκυνέω era usado comumente para adoração inclusive dos Imperadores Romanos. Embora, a STV esteja convicta que em todas as ocasiões que προσκυνέω é aplicado a Cristo o sentido do termo significa apenas prestar homenagem, nós acreditamos que tal conclusão não corresponde a evidência.

a. Προσκυνέω Possivelmente Como ‘Prestar Homenagem’

Em Mc.15.19 nós lemos que os soldados que afligiam a Cristo “κα τιθέντες τ γόνατα προσεκύνουν ατ (ajoelhavam-se e adoravam/prestam homenagem a Ele). Nesse texto, qualquer que seja o sentido que se atribua a προσκυνέω sabe-se que trata-se de um ato de ironia. Cristo poderia estar sendo reverenciado como o rei (cf. v.15), ou adorado como o tal, ou até mesmo homenagens poderiam ser prestadas a Ele. Entretanto, sabe-se pelo contexto que a ação dos soldados romanos era desprovida de real intenção. Em outras palavras, a partir desse verso, pouco se pode dizer sobre a possibilidade de Jesus receber ou não adoração.

b. Προσκυνέω Como um Ato de Reverência/Submissão

Em pelo menos 5 ocasiões (Mat.8.2; 9.18; 15.25; 20.20; Mc.5.6) os evangelistas apresentam histórias que de súplica ou até mesmo desespero. Caso similares a esses são encontrados tanto na LGC, LXX e outras narrativas apresentadas por Josefo. Em Mat.8.2 vemos que o o leproso “λθν προσεκύνει ατ λέγων” (veio e prostrando-se diante dele disse). A narrativa aqui nos apresenta o caso de alguém crente e esperançoso para receber a cura para seu problema. A descrição desse leproso como vindo (ρχομαι) até Cristo, é apresentado em várias ocasiões onde seu poder é esperado (Mat.9:18; 15:25; 20:20). Pessoas vinha até Cristo desesperadas (Mat.9.18; 15.25; cf. Mc.5.6) com a expectativa que Ele pudesse resolver seu problemas. Nesses casos, parece que a narrativa não apresenta a ação descrita por προσκυνέω como um ato de adoração, muito menos de homenagem, mas de submissão diante de uma necessidade expressa por meio de súplica. Descreve um ato de humildade, inferioridade e impotência. Existe a crença de que aquele diante de quem se solicita o favor é capaz de realizar o pedido, na mesma intensidade que vemos o servo solicitar perdão do seu Senhor (Mat.18.26). A esperança por um milagre não necessariamente aponta para o reconhecimento de divindade em Cristo, pois em ocasiões de desesperoqualquer remédio é bom remédio. Em Mat.20.20, vemos a solicitação da mãe dos filhos de Zebedeu, que reverentemente ajoelha-se diante de Cristo. Dificilmente nesse caso encontramos um ato de adoração ou prestação de homenagem. É um ato de reverência ante a autoridade.

c. Προσκυνέω Como um Possível Ato de Adoração ao Cristo Encarnado

Na narrativa que Mateus apresenta para o nascimento de Cristo, προσκυνέω é usado 3x (Mat.2.2, 8, 11) e de fato é muito difícil classificar como esses versos devem ser entendidos. Em primeiro lugar, sabemos que προσκυνέω foi usado como forma de reverência a reis em textos na LGC e LXX e que era um uso comum no primeiro século, como visto nos papiros de Oxirrinco e nos escritos de Josefo e Filo, e portanto tal uso aqui não seria incorreto. Entretanto, nenhum exemplo se encontra desse tipo de ato reverente perante uma criança. Em segundo lugar, é difícil precisar de onde são os magos que vieram do oriente, para entender que tipo de costumes poderiam ter que pudesse explicar o que está acontecendo. Infelizmente, a narrativa bíblica não nos oferece informação suficiente para definirmos com clareza a origem e visão dos magos a respeito desse ato apresentado como o termo προσκυνέω.

Entretanto, alguns detalhes textuais merecem nossa atenção:

(1) Em Mat. 2.2 lemos: “κα λθομεν προσκυνσαι ατ (e nós viemos para adorar/prestar homenagem a ele). O verbo ρχομαι é usado aqui antes de προσκυνέω, e essa linguagem possivelmente aponta para um evento religioso onde o poder de Cristo é esperado (cf. Mc.5.33), ou até mesmo reconhecido. O objeto de προσκυνέω aqui é dativo, o que sugere, como já vimos, um sentido de pessoalidade envolvida.

(2) Em Mat. 2.8 lemos que Herodes diz: “πως κγ λθν προσκυνήσω ατ (para que eu mesmo vá e adore/preste homenagem a ele). Sabe-se ao certo que as intenções de Herodes são diametralmente opostas a dos magos, mas usando de ironia Herodes usa a mesma construção que os Magos usaram para descrever o ato intencionado ante ao rei dos Judeus. O mesmo verbo (ρχομαι) introduz  προσκυνέω e ele também opta pelo dativo como objeto do ato de homenagem/adoração. O que quer que os Magos queriam dizer com tal construção, Herodes sagazmente dá a entender que ele tem o mesmo plano.

(3) Em Mat.2.11, entretanto, vemos que o ato realizado pelos Magos é paralelo a vários outros relatos que descrevem um ato de adoração: “κα λθόντες ες τν οκίαν () κα πεσόντες προσεκύνησαν ατ (E indo até a casa (…) prostraram-se e adoraram/prestaram homenagem a ele). (a) Novamente ρχομαι é utilizado como introdução da cena e o objeto da ação descrita por προσκυνέω é dativo. (b) Entretanto, de acordo com a narrativa, os Magos se prostraram ante à criança antes de realizar a ação descrita com προσκυνέω. Como já vimos, esse mesmo tipo de construção foi vista na ação de Cornélio para com Pedro (At.10.25), de João para com o anjo (Ap.19.10; 22.8) e sabemos que existem fortes evidências que apontam para essa descrição como um ato de adoração. Nesses três casos πίπτω introduz a ação descrita por προσκυνέω cujo objeto é dativo. Vale acrescentar que a adoração a Deus é apresentada nesses termos em vários lugares no NT (Mat.4.9; 1Cor.14.25; Ap.4.10; 5.14; 7.11; 11.16; 19.4).

Diante disso, é possível entender que a ação realizada pelos Magos aqui aponta para um ato de adoração. Entretanto, não deve-se concluir disso que os Magos entendem a Cristo (criança) como Deus digno de adoração. Afinal, nada sabemos sobre o contexto de onde esses Magos e sua cosmovisão sobre a divindade. Por outro lado, podemos dizer que tanto quanto Mateus nos deixa conhecer desse Magos através de sua narrativa, o ato realizado pelos Magos é um ato de adoração. Tal ato estaria completamente dentro do padrão estabelecido pelo texto, afinal Cristo já havia sido chamado de Emanuel, Deus conosco (Mat.1.23).

Durante o ministério de Cristo, apenas dois versos parecem sugerir que Cristo foi adorado. Em Jo.9.38 lemos a resposta do homem cego, que depois de curado é convidado por Jesus para crer no Filho do Homem que disse: “Πιστεύω, κύριε· κα προσεκύνησεν ατ (Eu creio, senhor e O adorou/prestou homenagem a ele). É realmente difícil definir o sentido de προσκυνέω nesse texto, e ambas traduções poderiam ser aceitas como válidas. Em defesa de uma tradução como “prestou homenagem a Ele“, ou “O reverenciou” apontamos o uso do vocativo κύριε (senhor), uma forma respeitosa de se dirigir a alguém investido de autoridade. Nesse caso, é possível que a resposta do cego a Cristo seja revestida de honra ou reverência. Contra essa conclusão, dois detalhes devem ser notados: (1) João usa προσκυνέω somente com sentido de adoração (Jo.4.20*2; 21, 22*2, 23*2, 24*2; 12.20); (2) O ato de prostrar-se é antecedido por uma confissão de fé em Cristo como o Filho do Homem, que no evangelho de João representa a revelação encarnada de Deus que deu sua vida pelo mundo (cf. Jo.3:13–14; 5:53; 6:27; 12:23; 13:31). Em outras palavras, ainda que a tradução “prestou homenagem” ou “O reverenciou”sejam possíveis, é bem provável que o texto aqui aponte para um ato de adoração.

Em Mat.14.33 nós lemos: “ο δ ν τ πλοί προσεκύνησαν ατ λέγοντες, ληθς θεο υἱὸς ε (Então, aqueles que estavam no barco, o adoraram dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus). Nesse verso a expressão ληθς θεο υἱὸς ε (És verdadeiramente o Filho de Deus) descreve o conteúdo expresso por προσκυνέω nesse texto. Dificilmente poder-se-ia dizer que essa afirmação trata-se de uma prestação de homenagem. Aliás, nesse texto, traduzir προσκυνέω como prestação de homenagem não parece adequado. Eles estão declarando que Cristo, aquele que andou sobre as águas, é verdadeiramente o Filho de Deus. É bem provável que esse é um caso de adoração ao Cristo encarnado.

d. Προσκυνέω como um Ato de Adoração do Cristo Ressurreto

Depois de usa morte e ressurreição, em três ocasiões προσκυνέω é usado em referência a Cristo, e pelo contexto, dois indicam um ato de adoração reverente a Jesus Cristo. Em Mat.28.9 nós lemos: “α δ προσελθοσαι κράτησαν ατο τος πόδας κα προσεκύνησαν ατ (Então, elas aproximaram-se dele e abraçando-lhe os pés o adoraram). Nesse texto, o ato de prostrar-se é descrito pela expressão κράτησαν ατο τος πόδας (lit. pegaram os pés dele) e, portanto προσκυνέω não descreve tal ato. Dificilmente nesse contexto o sentido de prestar homenagem é apropriado. Cristo não está sendo apresentado como um rei, não está sendo descrito como exigindo algo, nem encontramos na cena o desejo desesperado de ajuda, como vimos em outros texto. Nesse texto, vemos a reação das mulheres diante da notícia da ressurreição de Cristo dada pelo próprio Cristo ressurrecto. Da mesma forma que diante de um evento além da compreensão humana levou João a prostrar-se ante ao anjo em adoração, essas mulheres prostraram-se ante ao Cristo ressurreto em adoração. Entretanto, diferente do caso do anjo que repreendeu a João pelo ato indevido, Jesus consente com o fato. De duas uma, ou ele está recebendo algo indevido, e portanto, deve ser descrito como um impostor, ou ele aceita dos homens o que somente Deus pode aceitar. Note também o dativo como objeto direto (ατ) novamente usado aqui. Ao ler esse texto honestamente, dificilmente se escapa da conclusão de que a adoração de Cristo está em vista aqui.

Pouco à frente, quando os discípulos reencontram a Cristo, a reação é similar, mas não generalizada. Em  lemos: “δόντες ατν προσεκύνησαν, ο δ δίστασαν” (quando o viram o adoraram, mas alguns hesitaram). O verbo usado aqui para descrever o que algumas traduções definem como dúvida é διακρίνομαι que não descreve um ato de descrença, mas de hesitação (cf. At.10.20) A hesitação apresentada aqui é interessantíssima, afinal são os discípulos que O conheciam intimamente parecem reagir de modo distante de Cristo. Nem todos duvidam nessa cena, mas o ato de adoração apresentado tem acusativo como objeto direto, o que sugere uma certa distância no ato da adoração. A cena é similar a encontrada no v.9, mas a distinção é também gritante: Os apóstolos, que deveriam recebê-lo devidamente, aqui são apresentados como em hesitação. Tal hesitação pode ter sido fruto de um possível medo de como Cristo reagiria diante da adoração deles, ou até mesmo de um problema religioso, no qual o pano de fundo judaico estritamente monoteísta estivesse em jogo. Mas, é mais provável que eles estavam confusos sobre como se portar diante do que estava acontecendo diante dos olhos deles. Entretanto, é importante notar a distinção que o texto oferece: Aqueles que adoraram não são os mesmos que hesitaram. Apenas alguns dentre eles hesitaram. Em outras palavras, ainda que a reação não tenha sido generalizada, dificilmente se encontra aqui um ato de prestar de homenagem. Do mesmo modo, não é possível ser categórico e afirmar que a atitude dos apóstolos aqui é uma atitude religiosa de adoração a Jesus Cristo.

Por fim, em Lc.24.52 nós lemos: “ατο προσκυνήσαντες ατν” (Eles O adoraram). Nesse texto é indubitável que o sentido é de adoração por uma série de fatores contextuais: (1) O ato descrito como προσκυνέω é antecedido pelo assunção de Cristo aos céus (v.51). A expressão que Lucas usa aqui para descrever o fato é “διέστη πʼ ατν” (Ele os deixou) é usada no evangelho é usado para descrever a partida de visitantes sobre-humanos (1:38; 2:15; 9:33; At.10:7; 12:10; cf. Gen 17:22; 35:13; Jz.6:21; 13:20); (2) O ato de deixar os discípulos é descrito como sendo a esfera celestial (νεφέρετο ες τν ορανόν). Jesus não apenas os deixou de modo paralelo ao caso de anjos, mas seu destino foi aqui definido. Em outras palavras, enquanto esses discípulos recebiam de Cristo sua bênção, ele os deixou e foi assunto aos céus. Diante desse ato extra-ordinário os discípulos o adoraram. Seria estranho encontrar uma prestação de homenagem se aquele a quem se presta esse sinal de referência não estivesse presente.

e. Προσκυνέω como um Ato de Adoração do Cristo Exaltado

Dois textos descrevem o ato de adoração atribuída ao Cristo Exaltado. Em Ap.5.14, nós lemos: “ο πρεσβύτεροι πεσαν κα προσεκύνησαν” (Os anciãos prostrando-se adoraram). Vários fatores favorecem a identificação de Cristo como Aquele que é adorado aqui: (1) O Cordeiro é o tema de todo o capítulo, mas especialmente nos versos 12-14. Observe que no verso 12 nós lemos: “ξιόν στιν τ ρνίον τ σφαγμένον λαβεν τν δύναμιν κα πλοτον κα σοφίαν κα σχν κα τιμν κα δόξαν κα ελογίαν” (Digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra e louvor). O Cordeiro é digno de recebe o louvor, da mesma forma que o próprio Deus o é (Ap.7.12): “ ελογία κα δόξα κα σοφία κα εχαριστία κα τιμ κα δύναμις κα σχς τ θε μν” (louvor, glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força sejam ao nosso Deus); (2) O Cordeiro é identificado com Deus no ato de adoração de todas as criaturas, no céu,na terra, debaixo da terra, no mar e em tudo o que neles existe no v.13: “Τ καθημέν π τ θρόν κα τ ρνί  ελογία κα τιμ κα δόξα κα τ κράτος ες τος αἰῶνας τν αώνων” (Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, honra, glória, e poder para o todo sempre). Tudo aquilo que fora criado oferece seu louvor a Deus, que se assenta no trono, e a Cristo. (3) Por fim, os próprios anciãos prostram-se ante ao Cordeiro e o adoram. A força do texto é tão intensa que até mesmo a Tradução do Novo Mundo entende que προσκυνέω aqui deve ser entendido como um ato de adoração. Em uma nota, entretanto, associam esse texto com Mt.4.10!

Por fim, em Hb.1.6 lemos: “προσκυνησάτωσαν ατ πάντες γγελοι θεο (Todos os anjos de Deus o adorem). Esse é um daqueles textos controvertidos, afinal o texto poderia ser traduzido como “prestem homenagem” e a tradução até poderia ser entendia como correta. Entretanto, se προσκυνέω aqui refere-se apenas a uma homenagem, como de alguém diante de um superior, deve-se lembrar que Aquele que recebe tal homenagem deve ser entendido como superior aos anjos. Contudo, como podemos saber como προσκυνέω é usado aqui? Sabe-se que nesse caso o autor de Hebreus está citando um outro texto, assim como o faz diversas vezes em outras ocasiões nesse mesmo capítulo. A pergunta então é: A que texto o autor de Hebreus está citando ou aludindo aqui? A verdade é que o autor de Hebreus está citando o Cântico de Moisés.

Três textos da LXX apresentam o Cântico de Moisés: (1) Dt.32.43, que diz: “προσκυνησάτωσαν ατ πάντες υο θεο (todos os filhos de Deus O adorem). Nesse verso encontramos um texto deveras similar àquele encontrado em Hb.1.6, com duas diferenças: (a) Em primeiro lugar o texto fala sobre υο θεο (filhos de Deus) e não a respeito dos γγελοι θεο (anjos de Deus), mas deve-se lembrar que as duas expressões são intercambiáveis na LXX. (b) Em segundo lugar, Aquele que recebe a adoração aqui é o próprio Deus. (2) Odes 2.43: “προσκυνησάτωσαν ατ πάντες ο γγελοι θεο (todos os anjos de Deus O adorem). O texto aqui é idêntico ao encontrado em Hebreus, à excessão do artigo ο antes de γγελοι,  e é uma re-edição do texto de Dt.32.43. Novamente aqui a distinção é que Aquele que recebe a adoração é o próprio Deus. (3) Sal.96.7 (97.7): “προσκυνήσατε ατ πάντες ο γγελοι ατο (Todo os Seus anjos O adorem). Nesse verso encontra-se a referência aos anjos, mas προσκυνέω aqui está na segunda pessoa do plural ao passo em todos os outros casos o verbo imperativo está na terceira pessoa do plural. Entretanto, novamente aqui o objeto da adoração é o próprio Deus.

Todos os textos mencionados acima são alguma forma uma variação do Cântico de Moisés, um importante documento judaico frequentemente aludido no NT (Rom.10.19; 11.11; 12.9; 15.10; 1Cor.10.20, 22; Fp.2.15; Lc.21.22; Ap.6.10; 10.5; 15.3; 18.20; 19.2;cf. 4Mac.18.18-19) O que é interessante é que os texto citados acima tem duas características em comum: (1) Nos três versos προσκυνέω é indubitavelmente usado com o sentido de adoração e (2) O objeto de προσκυνέω nos três versos é o próprio Deus. Em outras palavras, o autor de Hebreus alude a um texto extremamente bem conhecido pela igreja primitivo no qual o sentido do texto era relacionado à adoração do próprio Deus e o aplica a Jesus Cristo. Dificilmente uma declaração mais clara da divindade de Cristo e do fato de que ele é digno de ser adorado pode ser oferecida. De fato, o contexto de Heb.1 suporta largamente essa conclusão, afinal, Ele já tinha sido apresentado como Criador (1.2), a expressão exata da essência (πόστασις) de Deus (1.3), o sustentador de todas as coisas (1.3), tendo um nome superior ao dos anjos (1.4), de tal modo que os próprios anjos, sob ordenação divina o adoram.

C. Conclusão

Como demonstramos em nossa análise diacrônica, no período imediatamente anterior à produção do NT προσκυνέω é largamente usado para descrever um ato de adoração. Também vimos que no período imediatamente posterior ao NT, especialmente na literatura cristã, προσκυνέω é usado exclusivamente com sentido de adoração. Portanto, não nos surpreende encontrar no NT tantos usos de προσκυνέω como um ato de adoração.

Deus é adorado 23x no NT com προσκυνέω (Mat 4.10; Lc.4.8; Jo.4.21, 23*2; 4.20*2, 24*2; 12.20; At.8.27; 24.11; 1Cor.14.25; Hb.11.21; Ap.4.10; 7.11; 11.16; 11.1; 14.7; 15.4; 19.4, 10; 22.9). Todas as vezes que a adoração a anjos é apresentada no NT προσκυνέω é usado (Ap.19.10; 22.8). Até mesmo o ato religioso de idolatria é apresentado, mesmo que uma única vez, como o termo προσκυνέω (At.7.43). É por isso que seria altamente improvável que todas as vezes προσκυνέω fosse aplicado a Cristo ele fosse completamente desprovido de atitude religiosa. Entretanto, das 16x que προσκυνέω é usado em referência a Cristo, certamente 6 não descrevem um ato de adoração (Mat.8.2; 9.18; 15.25; 20.20; Mc.5.6; 15.19) e pelo menos outras seis ocasiões o sentido de adoração é apenas possível (Mat.2.2, 8, 11; Mat.14.33; Mat.28.17; Jo.9.38), muito embora em alguns desses texto tal sentido seja altamente provável. Por outro lado, em 4 ocasiões o sentido de adoração é indubitável (Mat.28.9; Lc.24.52; Hb.1.6; Ap.5.14). Nesses textos a força de προσκυνέω claramente aponta para um ato de adoração, que não foi rejeitado por Cristo em Mat.28.9; recebido por Ele nas regiões celestiais em Lc.24.52; realizado por toda criação em Ap.5.14 e ordenada por Deus aos anjos em Hb.1.6.

Portanto, podemos concluir seguramente que o NT claramente atribui a Cristo o ato de adoração, do mesmo modo a atribui a Deus. Pai e Filho são equiparados não apenas nas características que partilham, mas também na devoção e adoração que recebem. É evidente que Cristo é digno da nossa homenagem, entretanto, de acordo com as escrituras, Ele é digno de muito mais: Poder, honra, riqueza, sabedoria, louvor e a nossa adoração! Ele é nosso Senhor, e como Policarpo, nós o adoramos como Filho de Deus. A Ele devemos tudo, e tudo a Ele daremos, incluindo nossa adoração.


Fonte: napec.org